sábado, março 21, 2026

Virar a mesa


Em 2013, quando pensava que a troika teria uma influência mais duradoura e "laxante", escrevi: "O repovoamento do interior também passa por isto". Agora, a propósito de "Fabricante espanhola de alumínio investe 100 milhões em Chaves e cria 400 empregos", à procura de um padrão, voltei ao tema.

Durante demasiado tempo, olhou-se para o interior como quem olha para um aluno fraco que precisa de alcançar a média da turma. Falta isto, falta aquilo, falta população, falta escala, falta litoral. E assim, foi-se criando uma forma de pensar profundamente estéril: a ideia de que o interior só teria futuro se conseguisse parecer-se mais com aquilo que não é.

Ora, talvez a jogada certa seja precisamente a contrária. Talvez o interior não tenha de competir numa lógica de comparação directa, laranja contra laranja. Talvez tenha de fugir dessa armadilha. Tenho escrito muitas vezes sobre a importância da concorrência imperfeita: não ganhar por ser igual, ganhar por ser diferente; não entrar na guerra de preços e semelhança, mas criar uma proposta difícil de comparar directamente. "Your job is to make all things unequal".

Visto assim, a vinda da Cortizo interessa menos como celebração avulsa e mais como pista. O que é que uma empresa destas viu em Chaves? 


Não viu um litoral de segunda. Viu outra coisa. Viu espaço. Viu menos saturação. Viu a possibilidade de crescer sem o aperto de zonas congestionadas. Viu ligação à Galiza. Viu uma posição transfronteiriça que, para certos negócios, pode valer mais do que muita centralidade aparente. Cuidado, isto são especulações, nada mais.

É aqui que o assunto se torna interessante. Um território perde quando aceita entrar no jogo errado. Mas pode ganhar quando percebe qual é o jogo em que tem vantagem. Se Trás-os-Montes, se o interior tentar competir imitando o litoral, parte sempre atrasado. Mas se competir sendo aquilo que o litoral já tem mais dificuldade em ser, então a conversa muda. Deixa de ser um problema a compensar. Passa a ser uma combinação rara de atributos.

Uma fábrica não resolve tudo. Não inverte sozinha décadas de perda demográfica. Não cria automaticamente um ciclo novo. Mas pode ser um sinal de mudança de olhar. E isso, por vezes, é o princípio de quase tudo.

A pergunta, por isso, já não é apenas: por que veio a Cortizo? A pergunta mais fértil é outra: que outras actividades podem florescer no interior precisamente porque não é o litoral?

Talvez o futuro comece quando um território deixa de pedir licença para existir e passa a explorar, com inteligência, a sua diferença.

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