sábado, outubro 17, 2026

Curiosidade do dia

Em Janeiro, o DN publicou o título "Inquérito a 1500 empresários da indústria antecipa colapso no emprego em 2026". A abertura falava numa "esmagadora maioria" de empresários e gestores a antecipar dificuldades, e o artigo até referia os tempos da pandemia e da troika. Guardei o recorte. Agora, passados alguns meses, vale a pena confrontar aquelas palavras com os números já conhecidos. Uma palavra como "colapso" cria uma expectativa sobre a dimensão do que vai acontecer.

Comecemos pelo que sustentava o alarme do jornal. O artigo referia uma média móvel de três meses do saldo de respostas extremas de −1,4, um indicador calculado pela diferença entre a percentagem de respostas positivas e negativas. Esse valor não significava uma queda prevista de 1,4% do emprego, nem permitia concluir que uma esmagadora maioria dos empresários esperava reduzir trabalhadores. A maioria podia perfeitamente prever manter o emprego, com as respostas negativas a excederem ligeiramente as positivas. Os empresários responderam a um inquérito sobre as suas expectativas. A escolha da palavra "colapso" pertence ao jornal.

Chegados a Agosto, depois das guerras, depois das tempestades, depois dos aumentos dos preços dos combustíveis, depois da queda de Cristiano Ronaldo, o desemprego registado no IEFP estava 9,3% abaixo do mesmo mês de 2025: menos 27 915 pessoas. Somando os ramos da indústria transformadora, no Continente, o desemprego registado com origem nessas actividades diminuía 10,7%, enquanto as ofertas de emprego recebidas desses ramos durante Agosto aumentavam 27,6% em termos homólogos. Estes números não medem directamente o emprego industrial, cujo índice apresentava em Agosto uma ligeira contracção homóloga de 0,5%, segundo os dados do INE divulgados pela Direcção-Geral da Economia. Há dificuldades e há diferenças entre sectores. Os indicadores citados ficam, porém, muito longe de demonstrar o colapso anunciado.

As exportações de bens acrescentam contexto. Entre Janeiro e Agosto, cresceram 2,9% em valor face ao período homólogo, para 54,1 mil milhões de euros. No trimestre de Junho a Agosto, o crescimento homólogo foi de 8,2%. No acumulado dos oito meses, as exportações de máquinas e aparelhos aumentaram 10,4%, as de metais comuns 13,1% e as de plásticos e borrachas 6,7%. Também houve quebras, nomeadamente nos químicos, de 28,4%, e nos veículos e outro material de transporte, de 1,8%. Outra vez, valores que descrevem uma realidade industrial bastante mais diversa do que aquela palavra fazia antever.

Não censuro os empresários por manifestarem preocupação com o futuro. Quem gere uma empresa conhece incertezas que nenhum quadro estatístico elimina. Ao jornal cabe explicar o alcance dessas respostas e escolher palavras proporcionais à evidência disponível. Um indicador de expectativas ligeiramente negativo justificava atenção e acompanhamento. Transformá-lo num anúncio de colapso exigia uma fundamentação que o artigo não apresentava. Gostava de ver o DN regressar agora ao tema e confrontar o dramatismo de Janeiro com os dados conhecidos até Agosto. O rigor também se avalia depois da notícia sair. Afinal, o FMI sempre chegou a vir.

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