Há dias li a tradução do Google de um artigo no Handelsblatt do passado dia 6 de Agosto, "Rebuy kauft Momox wichtigen Partner weg" ("Rebuy adquire parceiro importante da Momox").
O crescimento do mercado de artigos em segunda mão não resulta apenas de uma maior consciência ambiental ou da procura de preços mais baixos. Tem também uma dimensão demográfica. Segundo o Handelsblatt, o comércio electrónico de produtos usados na Alemanha cresceu 84% entre 2019 e 2025, atingindo 10,5 mil milhões de euros. O artigo é sobre a aquisição da Zeercle pela Rebuy e mostra que já se está a construir a infra-estrutura necessária para recolher, seleccionar e recolocar no mercado quantidades crescentes de bens usados — neste caso, através das próprias livrarias.
O Japão permite antever o que esta evolução demográfica poderá significar. Mais de 10% da sua população já tem 80 anos ou mais e quase um terço ultrapassou os 65 anos. As pessoas podem viver muito depois dos 90 anos, ou mesmo dos 100, mas não são eternas. Quando morrem, cada vez mais frequentemente sozinhas ou sem descendentes próximos, alguém tem de esvaziar as casas, avaliar os objectos e decidir o que pode ser vendido, reutilizado, exportado ou eliminado. Desenvolveu-se, por isso, uma verdadeira indústria em torno dos kodokushi, as "mortes solitárias", e da organização dos bens deixados pelos falecidos, realidade que a revista Time já descrevia, em 2010, como uma oportunidade de negócio. "Japan’s “Lonely Deaths”: A Business Opportunity"
Parte desses bens encontra uma segunda vida noutros países. Roupa, móveis, electrodomésticos e outros objectos recolhidos em casas japonesas são, por exemplo, enviados para as Filipinas, onde voltam a ser vendidos e utilizados. Aquilo que, visto apenas do Japão, poderia parecer um problema de resíduos transforma-se, através de redes de recolha, triagem, logística e comercialização, numa cadeia internacional de criação de valor.
A Europa irá confrontar-se cada vez mais com a mesma realidade: populações envelhecidas, famílias mais pequenas, mais pessoas sem filhos e uma enorme acumulação de bens ao longo de vidas cada vez mais longas. O mercado de segunda mão não crescerá apenas porque os consumidores gostam de comprar usado, mas também porque será necessário encontrar um destino para tudo aquilo que uma geração envelhecida deixa para trás. A oportunidade estratégica estará em construir, antecipadamente, os sistemas de confiança, avaliação e logística capazes de transformar essa abundância de bens dispersos numa nova oferta organizada.


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