Mão amiga fez-me chegar um artigo publicado no caderno de Economia do semanário Expresso do passado dia 19 de Junho, "Produtividade em Portugal é a quarta mais baixa da União Europeia e piorou em 2025".
O artigo reúne vários factos relevantes, mas mistura produtividade agregada, eficiência operacional, qualificação, salários, horas de trabalho e competitividade como se fossem praticamente a mesma coisa.
"Em Portugal trabalha-se mais horas do que na União Europeia, mas criando menos valor do que noutros países."
"A produtividade do trabalho em Portugal está na cauda da Europa."
Estas frases sugerem que o trabalhador português, individualmente considerado, cria menos valor. Porém, o indicador descreve a economia e a sua estrutura: sectores, empresas, produtos, capital, tecnologia, preços e posições nas cadeias de valor.
O artigo corrige parcialmente esta impressão mais adiante:
"Os trabalhadores portugueses são tão produtivos como quaisquer outros, dependendo do enquadramento."
Esta é, provavelmente, uma das afirmações mais importantes do texto, mas não é suficientemente explorada.
A produtividade por hora não mede quanto um trabalhador se esforça, nem quantas unidades físicas consegue produzir. Mede o valor acrescentado criado por hora, agregado em toda a economia.
Um trabalhador português pode executar uma tarefa tão bem como um alemão ou um dinamarquês e, ainda assim, surgir associado a uma produtividade muito inferior porque trabalha:
- num sector que pratica preços mais baixos;
- numa empresa subcontratada com pouco poder negocial;
- num produto indiferenciado;
- numa fase pouco valorizada da cadeia de valor;
- com menos capital, tecnologia, escala ou activos intangíveis.
O artigo aproxima-se, demasiadas vezes, da ideia de que os portugueses produzem pouco porque estão mal organizados, têm menor qualificação ou passam demasiado tempo no trabalho.
Enquanto lia o artigo pensava, a produtividade dum jornalista do Expresso aumenta bastante se o número de leitores pagantes aumentar.
Continuar.
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