Em "O valor brando da economia portuguesa" no final pode ler-se:
"uma parte demasiado grande da economia portuguesa assenta em valor brando, frequentemente dependente de procura interna, proteção implícita, regulação favorável e compressão de custos e salários."
Ninguém diz ao filho de cinco anos que a festa de Natal foi uma porcaria. O problema começa quando esta lógica afectiva passa para a economia: empresas pouco produtivas são protegidas da concorrência, poupadas ao confronto com os seus próprios erros e sustentadas por regulação favorável, crédito, subsídios, compressão salarial e acesso permanente a mão-de-obra barata.
Os políticos receiam que as empresas morram, porque cada encerramento tem custos sociais e eleitorais visíveis. Mas, ao tentarem evitar todas as mortes empresariais, acabam por promover a zombificação: mantêm recursos, trabalhadores e capital presos a actividades que já não criam valor suficiente e impedem o nascimento e o crescimento de empresas mais produtivas.
E já agora, a dependência da procura interna não é, por si só, o problema. O problema surge quando essa procura é protegida da concorrência externa, alimentada por regulação favorável ou pouco exigente e suficiente para sustentar empresas que não precisam de aumentar significativamente a produtividade. Já as empresas expostas à procura externa enfrentam uma disciplina competitiva mais forte; mas, quando operam em actividades de baixo valor acrescentado, podem responder não através de inovação, diferenciação ou subida na escala de valor, mas comprimindo custos e salários. Num caso, a fragilidade é protegida pelo mercado interno; no outro, é exportada através de um modelo de competitividade baseado no preço.
Deixem as empresas morrer! Diferente de "matem as empresas".


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