quarta-feira, junho 10, 2026

Curiosidade do dia


O The Times de hoje publica um pequeno artigo intitulado "Bordeaux waves white flag as world loses its taste for reds".

Em Bordéus, alguns produtores de vinho parecem ter percebido que o mundo mudou. As vendas de tintos fortes estão em queda, o consumo global de vinho desceu para níveis muito baixos e a procura deslocou-se para vinhos brancos mais leves, frescos e fáceis de beber.

Como arrancar vinhas antigas e plantar novas é caro e demora anos, alguns produtores encontraram uma solução mais rápida: fazer enxertos. Em vez de substituírem a vinha inteira, enxertam castas brancas, como chardonnay, em videiras que antes produziam uvas tintas, como merlot. A esperança é simples: em poucos anos, a mesma estrutura de vinha poderá produzir o vinho que o mercado agora procura.

Confesso que não percebo esta movimentação dos produtores franceses.

Para quê esta pressa em adaptar a produção ao consumidor? Para quê esta obsessão com a realidade? Para quê enxertar, experimentar, correr riscos, aprender e mudar?

Podiam fazer como em Portugal.

Primeiro, queixavam-se ao ministro da Agricultura. Depois explicavam que o problema não está no vinho, nem no mercado, nem nos hábitos dos consumidores. O problema estaria, naturalmente, na falta de apoios, na concorrência desleal, na distribuição, em Bruxelas, no clima, nos jovens que já não bebem como antigamente, e talvez até na falta de patriotismo de quem não compra o que sempre se produziu.

Por fim, à custa dos contribuintes, pedir-se-ia um programa de apoio para que ninguém precisasse de mudar. Apoios à vinha, apoios ao stock, apoios à destilação, apoios à promoção, apoios à manutenção do rendimento, apoios à transição que não transita.

É sempre mais cómodo pedir ajuda ao Estado para não ter de mudar.

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