sábado, maio 23, 2020

Sacrificar a economia, para salvar a Segurança Social?


Stressors are information. Uma frase que aprendi com Nassim Taleb.

Na última semana tenho pensado no papel do prolongamento do lay-off.

Qual deve ser o papel da figura do 'lay-off'?

Uma coisa é um choque contra a parede e ser preciso tempo para ganhar fôlego, e perceber qual o novo contexto. Outra coisa é perceber que o contexto mudou profundamente e que não vai haver um retorno elástico porque se entrou numa zona de deformação plástica.


A partir do momento em que se percebe que a deformação é plástica, se os turistas não vêm sofre(m):

  • a hotelaria;
  • o alojamento local;
  • a restauração;
  • o aluguer de automóveis;
  • a limpeza de casas;
  • os fornecedores do canal horeca (carne, peixe, legumes, vinho, ...)
  • ...
Manter toda esta rede de trabalhadores em 'lay-off' é adiar o inevitável, é mascarar uma situação, é atrasar a procura de uma nova posição competitiva. 

"Stressors are information", são sinais para calibrarmos a quantidade relativa de exploration versus exploitation. Perante os stressors há os que os agarram e, como os ratos do livro "Quem mexeu no meu queijo", interagem com a nova realidade. E há os que, como o Pigarro do mesmo livro, resistem à mudança e solicitam o apoio e a protecção dos governos, gerando toda uma série de doenças por causa do veneno do activismo. Como escrevi na passada Quinta-feira, "Discovery beats planning". Sem stressors, poucos são os que se metem ao caminho, e menos ainda são os que estão dispostos a cortar com muito ou pouco do passado para ganhar uma oportunidade de ter futuro. Isto fez-me lembrar, as "127 horas" de Aron Ralston no Blue John Canyon.

No livro "Antifragile" no mesmo período em que Nassim Taleb usa a palavra stressors também se lê:
"Just as spending a month in bed leads to muscle atrophy, complex systems are weakened or even killed when deprived of stressors....The economic class doesn't realize an economy lives by stressors rather than by top-down control."
Em Janeiro de 2016 escrevi:
Existe um problema de fundo: talvez a nossa forma de trabalhar já não se ajuste à realidade que entretanto mudou.
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Esse problema de fundo manifesta-se em sintomas: preços baixos; excesso de produção; ...
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Perante um problema de fundo devíamos optar por uma solução de fundo. Contudo, é mais fácil, é mais rápido, é menos doloroso para nós, procurar um remendo que mascara a situação e diminui a dor provocada pelos sintomas. Só que o remendo gera efeitos secundários que se vão acumular e acumular até que a comporta vai rebentar e não mais será possível recorrer a um remendo... terá de se ir em busca de uma solução de fundo.
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O tempo de acumulação dos efeitos secundários é o tempo em que o pau vai e vem e as costas folgam. Quando a comporta rebenta, os que ficam com a criança nos braços são os que são chamados de quererem ir "além da troika".
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Quando os políticos se metem nestas cenas, temos o caldo entornado. Fragilistas encartados e com bolsos muito fundos, à custa dos contribuintes, têm uma capacidade de acumular efeitos secundários muito para além do seu consulado e de moldar todas as mentes a este arquétipo de reacção a problemas de fundo com base em remendos.
Em termos de economia estamos falados, e a economia é que conta. Outra possibilidade passa por sacrificar a economia, para salvar a Segurança Social. Basta imaginar que o dinheiro europeu vá pagar 'lay-off', mas não subsídios de desemprego.

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