Em Dezembro de 2006 escrevi aqui no blogue em "Spray marítimo que precede o splash da onda":
"Um dia, os noticiários da TV, as passagens de modelos, os anúncios de TV, os enredos dos filmes, ... serão protagonizados por gente com mais de 60 anos. Serão o espelho da sociedade."
Em Março de 2017 citei aqui no blogue em ""You ain't seen nothing yet"":
"Os dias de casting de modelos na casa dos 20 anos e tamanhos pequenos ou, ainda, de tez branca, parecem estar a chegar ao fim, com as marcas de moda a começarem a ser mais representativas, especialmente quando se trata de usar modelos numa faixa etária diferente. A necessidade de mudança vem, ironicamente, dos números.
Aqueles com mais de 60 anos constituem o grupo em maior crescimento nas populações dos países ricos e o seu número deverá aumentar mais de um terço até 2030, de 164 para 222 milhões. Os consumidores mais velhos são também os mais ricos, graças à inflação dos preços de imóveis e às suas reformas generosas."
Quase vinte anos depois daquele primeiro postal, o artigo "Milan's new models? Over 60 and sciura glam" publicado no The Times de ontem, mostra mais um sinal de que a onda está a chegar. Nas passerelles de Milão, a Gucci dá protagonismo às sciure, mulheres de uma certa idade, abastadas, com estilo próprio e disponibilidade para gastar naquilo que vestem.
O artigo coloca o dedo no ponto essencial:
"who tends to have the money to buy posh schmutter? Older women."
São clientes que a indústria do luxo desvalorizou durante décadas, enquanto privilegiava a juventude nas suas imagens. Agora, procura seduzi-las com propostas que correspondam aos seus gostos e à sua maneira de estar.
A ligação com o que escrevi em 2006 e citei em 2017 é directa: quando muda a composição do mercado, muda também o interesse económico de quem vende. Uma população mais envelhecida, com segmentos que concentram património e poder de compra, cria oportunidades para as marcas que consigam compreender esses clientes. A sua presença nas passerelles torna visível uma realidade que já existia nas carteiras.
O artigo acrescenta um pormenor decisivo: estas mulheres têm preferências próprias. A aposta da Gucci procura atrair quem está cansado da informalidade que chegou até à moda mais cara e pode desejar algo mais elegante, elaborado e distintivo. Reconhecer um segmento implica conceber uma proposta para ele, desde o produto até à comunicação.
É aqui que a demografia se transforma em estratégia. Os números dão sinais com anos de antecedência; cabe às empresas decidir que clientes querem conquistar e o que precisam de mudar para os servir. Em 2006 escrevi sobre o spray que precedia o splash da onda. Este artigo mostra mais uma forma concreta que essa onda está a tomar.
Se olhar para os números do contexto da sua empresa que especulações consegue fazer com eles sobre futuros cenários? O que consegue ver que os outros não conseguem? Não porque sejam burros, mas porque têm experiências, posturas e ambições diferentes.
O que deverá fazer para testar as águas desses cenários?


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