Lembrei-me da estória do velho, do rapaz e do burro por causa de um título do jornal Público:
"Portugal faz descontos nos combustíveis, mas não incentiva redução no consumo"
Se o Governo reduz o preço dos combustíveis, é acusado de não incentivar a redução do consumo. Se deixar os preços subirem para desencorajar o consumo, será acusado de abandonar as famílias e as empresas ao aumento do custo de vida. Se subsidia, promove o consumo; se não subsidia, é insensível.
Tal como na estória do velho, do rapaz e do burro, qualquer escolha suscita uma censura:
- vão os dois a pé: «Que desperdício, tendo um burro»;
- monta o rapaz: «Que falta de respeito pelo velho»;
- monta o velho: «Que crueldade para com o rapaz»;
- montam os dois: «Pobre animal»;
- acabam por carregar o burro — e tornam-se ridículos ao tentarem satisfazer toda a gente.
Portugal torna os combustíveis mais baratos, mas não consegue que as pessoas consumam menos daquilo que tornou mais barato. A verdadeira questão, que o título esconde, é esta: afinal, qual dos objectivos deve prevalecer, aliviar imediatamente o custo de vida ou encarecer o consumo para acelerar a transição energética? Pretender os dois ao mesmo tempo, sem reconhecer o conflito, é pedir ao velho e ao rapaz que encontrem a maneira politicamente correcta de transportar o burro.


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