sábado, setembro 19, 2026

Curiosidade do dia

Há uma pornografia da indignação que se repete nos canais televisivos. A câmara encontra alguém de mangueira na mão; o repórter aproxima-se, microfone em riste, e não faz perguntas: entrega respostas com ponto de interrogação. "Os combustíveis aumentaram. O Governo devia impedir. O Governo é mau por não impedir, certo?" É o equivalente político de perguntar a uma criança, numa tarde de Verão, se quer um gelado e se os pais são maus por não lho darem.

É pornográfico, em sentido metafórico, porque oferece excitação imediata sem contexto, desejo sem custo e indignação sem responsabilidade. Não se pergunta o que o Governo pode realmente fazer, quanto custaria e quem pagaria. O espectador é reduzido a consumidor de queixa; o cidadão, a criança contrariada.

Depois, a mesma televisão põe um ar grave e pergunta por que cresce o Chega. Uma parte da resposta está neste viveiro: problemas complexos reduzidos a culpados fáceis e soluções vendidas como gelados grátis.

Enquanto a Suíça, a Alemanha, a França e a Polónia discutem resiliência, indústria de defesa, protecção de infra-estruturas e preparação para a possibilidade de guerra, o Portugal televisivo continua diante da bomba: adulto no cartão bancário, criança na narrativa, à espera de que alguém lhe pague o gelado. O escândalo já não é apenas o preço por litro. É o preço político desta infantilização.

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