O WSJ do passado dia 8 publicou um artigo que me tocou de forma especial, "The Last First Day of School: 'Love Is Proved in the Letting Go'":
"Life is measured in mileposts, a steady progression through the rites of passage that delineate the mortal journey. When we're young the markers of time are mostly thrilling firsts: first day of school, first kiss, graduation, first job,
...
Soon they give way to other, less welcome firsts: first broken heart, first hospital visit, first death of a loved one. As we age, the firsts are replaced by a steady accumulation of lasts. The realization dawns that each of the little rites of life and love we have performed with metronomic regularity for decades are happening now for the final time: the last trip to a favorite place, that last steep hill climb, the last visit with an old friend."
A vida começa a ser contada pelas primeiras vezes. O primeiro dia de escola, o primeiro emprego, a primeira viagem, a primeira casa. São acontecimentos que reconhecemos enquanto ocorrem. Fotografamos-los, celebramos-los e guardamos a data.
Com as últimas vezes é diferente. Raramente sabemos que estamos perante uma delas. Não percebemos que aquela foi a última vez que alguém subiu as escadas sem ajuda, conduziu o automóvel, preparou o almoço para toda a família ou caminhou connosco sem ter de parar para descansar. Só mais tarde, olhando para trás, compreendemos que alguma coisa terminou silenciosamente. Ainda me lembro da última vez que falei com o meu pai... foi via telemóvel, eu em Mangualde e ele no Porto...
Tenho, todos temos, pessoas queridas que já passaram a barreira dos 80 ou dos 90 anos. Acompanhar as suas vidas é um privilégio, mas também uma aprendizagem difícil. Vejo-as tornarem-se progressivamente mais frágeis. Os passos ficam mais curtos, os movimentos mais cautelosos, a recuperação mais lenta. Aquilo que antes era automático começa a exigir esforço, ajuda ou coragem.
Essa fragilidade obriga-nos a olhar para o tempo de outra maneira. Faz-nos pensar que uma conversa banal talvez não seja tão banal assim. Que ouvir a mesma história mais uma vez pode ser mais importante do que corrigir uma repetição. Que uma visita adiada não é apenas uma visita adiada. Pode ser uma oportunidade que não regressa nas mesmas condições.
Não se trata de viver antecipadamente a perda, nem de transformar cada encontro numa despedida. Trata-se de estar verdadeiramente presente, de ter mais paciência, de fazer perguntas enquanto ainda podem ser respondidas, de escutar memórias que, um dia, talvez só continuem a existir dentro de nós. É uma das coisas que mais me fazem pensar... a evaporação das memórias de uma vida.
Talvez envelhecer ao lado de alguém seja isto: assistir, com ternura e alguma impotência, à passagem das primeiras para as últimas vezes. E perceber que amar também é acompanhar essa fragilidade sem fugir dela, valorizando o tempo que ainda existe, em vez de lamentar apenas o tempo que já passou.
Nunca sabemos quando será a última vez, mas essa consciência impele-me a tentar fazer com que cada vez conte mais.
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