quinta-feira, agosto 06, 2026

Curiosidade do dia


Ontem à noite, já na cama, continuei a leitura de Incorruptible, de Eric Ries. Apanhei-o a falar sobre o problema da surrogation: que ocorre quando se perde de vista a diferença entre uma realidade complexa e o indicador escolhido para a representar. O indicador deixa de ser entendido como uma representação parcial e passa a ser tratado como se fosse o próprio objectivo.

Um pouco como Costa com o défice.

A lei de Goodhart diz, em termos simples: Quando um indicador se transforma num alvo, deixa de ser um bom indicador. O problema está nos incentivos: as pessoas adaptam o comportamento para melhorar o número, eventualmente explorando as imperfeições da medição.

A surrogation de que Eric Ries escreve é ainda mais profunda. Não se limita a manipular o indicador. As pessoas passam a acreditar que melhorar o indicador é melhorar a realidade. O mapa deixa de ser reconhecido como mapa e passa a ser confundido com o território.

Vem isto a propósito dum artigo publicado hoje no NYT, "U.S. Ends Work With Organ Donor Group Over Reports of Abuses", e que vem na sequência de duas "Curiosidades do dia".
  • A primeira - uso a ironia para denunciar uma lógica utilitária: perante o custo da velhice, da doença ou do sofrimento, a morte começa a poder ser apresentada como solução administrativa.
  • A segunda — anota uma inversão ética mais específica: em vez de a morte tornar possível a doação de órgãos, a extracção de órgãos passaria a produzir a morte.
O artigo do NYT de hoje mostra uma versão operacional desta inversão: a necessidade de obter órgãos parece ter levado algumas organizações a desvalorizar sinais de consciência, de dor ou de recuperação por parte dos potenciais doadores. Ou seja, a pessoa deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um recurso para resolver o problema de outra pessoa ou do sistema.
"The federal government is firing the nonprofit group that coordinates organ donations in Kentucky after finding that it tried to pursue organs from critically ill people who were recovering from their injuries.
...
In Kentucky, scrutiny began when a congressional committee heard testimony about the case of Anthony Thomas Hoover II, who had an overdose in 2021. After family members were told that he would not recover, they authorized donation.
As coordinators arranged for the surgery, Mr. Hoover began to stir, at one point "thrashing on the bed," according to records reviewed by The Times. Still, Network for Hope, then called Kentucky Organ Donor Affiliates, tried to move forward. Finally, on the way to the operation, Mr. Hoover cried, pulled his knees to his head and shook his head, and a hospital doctor refused to withdraw life support.
Mr. Hoover eventually recovered, although he has lingering neurological injuries."

A transplantação tem um propósito indiscutivelmente positivo: salvar vidas. É precisamente por isso que o caso é tão instrutivo. Uma causa moralmente valiosa pode produzir comportamentos perversos quando o resultado pretendido se torna absoluto.

O raciocínio começa com: há milhares de pessoas que morrerão sem um órgão, mas pode evoluir silenciosamente para algo como: não devemos desperdiçar um órgão utilizável. E terminar em: este doente provavelmente não vai recuperar; é velho, vive sozinho; avançar é do interesse de várias outras pessoas.

A pessoa deixa então de ser um doente cuja vida continua a merecer protecção e passa a ser vista como um conjunto de órgãos escassos. 

"Overall, more than 100 cases had "concerning features," the investigators said"

Amanhã pode ser a sua vez. 


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