Imaginemos uma indústria em que os fabricantes de um componente continuam a aumentar a produção, apesar de já existirem componentes acumulados nos armazéns e das vendas dos produtos que os incorporam estarem em queda há vários anos. Quando os fabricantes desses produtos reduzem as encomendas, os fornecedores recusam-se a aceitar que o mercado mudou: acusam os clientes de não comprarem o suficiente e pedem ao Governo que compre os excedentes, garanta os preços e os ajude a manter inalterada a capacidade instalada.
Cada fornecedor espera que sejam os outros a reduzir a produção. Todos querem continuar a fabricar o mesmo volume e acreditam que mais promoção convencerá o mercado a absorvê-lo. Mas nenhum subsídio consegue revogar a realidade fundamental: se o produto final vende menos, a cadeia não pode continuar, indefinidamente, a produzir a mesma quantidade de componentes.
O apoio público pode ser necessário para evitar um colapso desordenado e ajudar os produtores mais vulneráveis. Mas ajudá-los a fazer o quê? A esperar, sentados, que a realidade volte ao que era? Isso é voltar a um episódio de 2006, relatado aqui em 2007.
Qualquer apoio deveria servir para financiar uma transição, reduzir capacidade, reconverter a produção, diferenciar a oferta e encontrar utilizações de maior valor, e não para adiar eternamente a mudança que o mercado já tornou inevitável.
Como julgam o comportamento dos produtores de componentes?
Em Portugal, país socialista até ao tutano, poucos se atrevem a criticar os produtores de uvas de componentes, o que querem é aumentar apoios e subsídios, ao mesmo tempo que querem que os impostos baixem, e que a produtividade suba.
Entretanto, um artigo publicado ontem no Público, "Arranque de vinha embaraça acordo para travar crise no Douro", fez-me lembrar o sentimento com que fico ao ler os jornais ingleses sobre a situação da economia inglesa.
A crise não resulta da ausência de avisos. Os sinais eram conhecidos: consumo insuficiente, existências crescentes, preços em queda e empresas a reduzir as compras (BTW, o aquecimento global parece que ajuda ao crescimento das uvas, a campanha de 2026 deverá crescer mais de 12% face à média dos últimos 5 anos). Ainda assim, continuou a autorizar-se mais produção de vinho do Porto. O problema do Douro não é, portanto, apenas o excesso de vinho; é também a incapacidade colectiva de transformar sinais negativos em decisões difíceis antes da realidade as impor.
Já imagino o Chega e o PS a unirem-se para bloquear o ajustamento.
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