sexta-feira, junho 19, 2026

Ver para lá do que se conhece (parte V)


No passado dia 16 o FT publicou "Me and my exoskeleton: the rise of wearable robotics", um artigo sobre um tema que acompanho há muitos anos

O artigo apresenta a entrada dos exoesqueletos e da robótica vestível no mercado de consumo:
"We are entering the age of the everyday exoskeleton: light, wearable robotic devices that can change what it means to grow old. Last week I strapped on a pair of bionic trainers to help me walk, and a robotic hip belt to make climbing easier.
...
Full exoskeletons have been around for decades, designed for military, workplace or medical rehabilitation uses. But now lighter, more attordable (if not cheap) joint-specific wearable exoskeletons are entering the market, aimed not at those who cannot walk, but those who struggle to go as far or as comfortably as they'd like."

A autora experimenta dispositivos que ajudam a caminhar e a subir escadas, como umas “bionic trainers” e uma cinta robótica para a anca. A ideia central é simples: a ciência aumentou a esperança de vida, mas ainda não redesenhou suficientemente os produtos, os espaços e os sistemas para que as pessoas vivam melhor nesses anos adicionais.

O artigo distingue entre viver mais e viver bem. Os novos dispositivos procuram aumentar a “healthspan”, ou seja, os anos vividos com autonomia, mobilidade, dignidade e participação social. Não se destinam apenas a quem já perdeu quase toda a mobilidade, mas também a quem ainda caminha, ainda sobe escadas, ainda quer viajar, brincar com os netos, fazer compras ou continuar a fazer caminhadas.

Estes produtos só entrarão verdadeiramente no quotidiano se deixarem de parecer “dispositivos médicos” e passarem a parecer extensões naturais da vida activa.

Tal como aconteceu com os óculos, os aparelhos auditivos, os relógios inteligentes ou as bicicletas eléctricas, a batalha não é apenas técnica. É cultural. 

O valor profundo destes dispositivos não está em “dar mais potência à perna”. Está em permitir que a pessoa continue a ser quem era. Continuar a caminhar. Continuar a viajar. Continuar a subir escadas. Continuar a ir ao supermercado. Continuar a brincar com os netos. Continuar a fazer parte do mundo. Quem conseguir transformar o exoesqueleto numa peça desejável, discreta, confortável e socialmente aceitável terá uma enorme vantagem.


Sem comentários: