A propósito de "Portugal "faz corar de inveja qualquer economia da União Europeia", garante Montenegro".
Se Montenegro estivesse na oposição, diria o mesmo?
Suspeito que não.
Se estivesse na oposição, Montenegro olharia para os mesmos indicadores e descobriria logo a outra face da medalha. Diria que o PIB cresce, mas que a produtividade continua fraca. Diria que há emprego, mas que muito emprego continua preso a actividades de baixo valor acrescentado. Diria que há turismo, restauração, construção, logística, serviços baratos e muita gente a trabalhar para manter uma economia que se mexe muito, mas sobe pouco.
E teria razão.
Uma economia pode crescer porque ficou mais sofisticada. Ou pode crescer porque põe mais gente a fazer mais horas em actividades que pagam pouco. Uma economia pode enriquecer porque subiu na escada do valor. Ou pode apenas ficar mais cheia, mais cansada e mais cara para quem lá vive.
E aqui entra a ironia.
Quando está no Governo, Montenegro vê uma economia que faz corar de inveja a Europa. Se estivesse na oposição, talvez visse uma economia que faz corar de embaraço quem confunde crescimento com transformação.
A diferença não está nos números.
Está no lugar onde se está sentado quando se olha para eles.
Montenegro declarou guerra à burocracia. Muito bem, mas falta declarar guerra à ilusão estatística.
Falta olhar para o PIB e perguntar: isto melhora a vida produtiva do país ou apenas prolonga uma versão mais elegante dos nossos velhos vícios?
Porque há crescimentos que anunciam futuro, e há crescimentos que apenas dão melhor aspecto ao passado.
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