Ontem de manhã, deparei com este tweet que me pôs a pensar:
et si on accepte tout ça sans broncher c'est qu'au fond la France a fait un choix de civilisation il y a longtemps, celui de la rente contre la conquête, on a cessé d'être un pays qui produit pour devenir un pays qui conserve
— Mehdi (e/λ) (@BetterCallMedhi) June 2, 2026
on vit de son patrimoine de son tourisme, de son luxe…
Depois, ao fim da tarde, encontrei no NYT um artigo sobre uma civilização que ainda mantém a mentalidade de conquista: "India's Hindu Right Has a New Hero: A 17th-Century Warrior King". E a minha mente voltou ao tweet...
O tweet chama a atenção para uma escolha silenciosa que uma sociedade pode fazer ao longo do tempo: deixar de produzir, construir e conquistar, para passar a preservar, administrar e cobrar rendas.
A renda pode vir do turismo, da herança cultural, da reputação internacional, da localização, da terra, da regulação, da energia nuclear construída por gerações anteriores, ou de qualquer outro activo herdado.
O problema não está em ter herança. O problema está em confundir herança com projecto.
Uma sociedade pode viver durante muito tempo dos activos que recebeu. Pode viver da paisagem, dos monumentos, da marca-país, da memória de feitos antigos, da posição geográfica, da respeitabilidade acumulada, da capacidade de estar presente em certos fóruns internacionais. Tudo isso pode ser valioso.
Mas nada disso substitui a pergunta essencial: o que estamos a construir agora?
O ponto mais interessante do tweet, para mim, é outro. Uma sociedade de rentistas acaba por desenvolver uma psicologia de rentista. Quem vive da renda tende a preferir segurança a descoberta, previsibilidade a ambição, conservação a conquista. Prefere uma receita pequena, mas certa, a uma aposta grande, mas incerta. Prefere arrendar a terra a quem constrói, em vez de financiar os seus próprios construtores.
A questão deixa, por isso, de ser apenas económica. Passa a ser mental.
O rentista não tem fome. Tem medo. E uma sociedade que perde a fome começa a tratar a ambição como imprudência. Começa a olhar para quem quer construir como alguém perigoso, ingénuo ou excessivo. Começa a chamar realismo à falta de coragem. Começa a chamar prudência à defesa do passado. Começa a chamar responsabilidade à incapacidade de imaginar futuro.
Ter património, reputação, localização, conhecimento acumulado ou uma posição dominante pode ser uma vantagem. Mas não é, por si só, uma estratégia.
Uma estratégia exige movimento. Exige escolhas. Exige apostas. Exige a capacidade de transformar activos herdados em novas fontes de valor.
Quando uma organização confunde os seus activos com a sua estratégia, começa a viver da renda. E viver da renda pode parecer confortável durante algum tempo. Os números ainda aparecem. A reputação ainda funciona. Os clientes ainda chegam. A marca ainda abre portas. O passado ainda paga algumas contas.
Até ao dia em que deixa de pagar.
A decadência nem sempre se apresenta como decadência. Muitas vezes aparece vestida de disciplina, eficiência, prudência, controlo e optimização. Cortar custos pode melhorar os números durante algum tempo. Preservar património pode parecer sensato. Evitar riscos pode parecer responsável.
No entanto, se tudo isso for feito à custa da capacidade de criar valor novo, a organização não está a gerir melhor. Está apenas a administrar com mais competência a sua própria perda de relevância.
O verdadeiro teste estratégico não é saber se ainda conseguimos proteger o que herdámos. É saber se ainda somos capazes de construir aquilo que não existe.
BTW, o meu lado cínico não deixa de olhar para toda a agitação em torno da eleição de Portugal para o Conselho de Segurança das Nações Unidas e, pensar numa pílula, num evento, numa "guerra de pilas" que traz conforto psicológico e mascara a erosão da perda de algo mais profundo.
Porque uma coisa é conseguir um lugar. Outra coisa é ter um projecto. Uma coisa é ser chamado para a sala. Outra coisa é ter força, visão e capacidade para influenciar o que acontece dentro dela.
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