Em "The End of One-Size-Fits-All Enterprise Software" os autores defendem que a inteligência artificial está a desfazer a lógica que dominou o software empresarial durante décadas. Até agora, as empresas compravam sistemas standard (ERP, CRM, plataformas de RH, ferramentas de projecto) e depois adaptavam o seu trabalho à lógica desses sistemas.
"Generative Al is dissolving the economic logic that made standardized enterprise software the only practical choice for most companies. What replaces it will be shaped not just by the rapidly evolving capabilities of this new technology, but by leaders willing to ask a harder question: Which workflows do we actually need to own?"
A pergunta era: "Como fazemos isto dentro do software?"
Talvez a pergunta certa devesse ter sido sempre outra: "Como deve este trabalho funcionar para criarmos mais valor?"
A IA pode mudar esta relação. Com agentes, low-code, no-code, APIs e ferramentas de desenvolvimento cada vez mais acessíveis, passa a ser possível criar soluções mais adaptadas à forma real como cada empresa trabalha. Isto é uma oportunidade, mas também é uma armadilha.
Porque, se agora é mais fácil construir software à medida, também é mais fácil construir desperdício à medida. Aprovações inúteis à medida. Relatórios redundantes à medida. Fluxos confusos à medida. Sistemas elegantes para continuar a fazer coisas que deviam ter sido eliminadas.
Antes, a empresa podia dizer: "O sistema obriga-nos a trabalhar assim." Essa desculpa vai perder força. Se podemos moldar a tecnologia ao trabalho, que trabalho merece realmente ser moldado, protegido e melhorado?
Numa PME, isto é muito concreto. A preparação de propostas comerciais é apenas administração ou é uma capacidade crítica? A gestão de reclamações é burocracia ou uma fonte de aprendizagem? A resposta a pedidos de clientes é papelada ou vantagem competitiva? A gestão de fornecedores, acções, auditorias, desvios, documentação ou reporting é apenas cumprimento ou parte da forma como a empresa cria confiança?
"But the underlying logic has changed. For a generation, the question in enterprise software was which tools should we buy. The emerging question is more fundamental: How can we rethink our workflows and decide which we want to build, compose, collaborate on, or buy outcomes?"
Nem tudo merece ser automatizado. Nem tudo merece ser construído internamente. Nem tudo merece ser controlado pela empresa.
Alguns workflows devem ser eliminados. Outros simplificados. Outros compostos com ferramentas existentes. Outros desenvolvidos com parceiros. Outros talvez devam ser comprados como resultado.
Mas a sequência importa. Primeiro, perceber o trabalho. Depois, decidir que trabalho merece existir. Depois, decidir que trabalho merece ser nosso. Só depois construir, compor, colaborar, comprar resultados ou automatizar. O fim do software "one-size-fits-all" não é um convite para pôr IA em todo o lado. É um convite para pensar melhor sobre como a empresa trabalha, onde cria valor e que capacidades quer realmente possuir.
Automatizar é o último passo.
Antes disso, há uma pergunta ainda mais importante: que trabalho queremos realmente manter nas nossas mãos?


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