quinta-feira, janeiro 15, 2026

"Sistemas que decidem com base no invisível tendem a decidir mal"



O NYT do passado dia 13 de Janeiro publicou o artigo "":
"For decades, the Environmental Protection Agency has calculated the health benefits of reducing air pollution, using the cost estimates of avoided asthma attacks and premature deaths to justify clean-air rules.
Not anymore.
Under President Trump, the E.P.A. plans to stop tallying gains from the health benefits caused by curbing two of the most widespread deadly air pollutants, fine particulate matter and ozone, when regulating industry, according to internal agency emails and documents reviewed by The New York Times.

It's a seismic shift that runs counter to the E.P.A.'s mission statement, which says the agency's core responsibility is to protect human health and the environment, environmental law experts said.
The change could make it easier to repeal limits on these pollutants from coal-burning power plants, oil refineries, steel mills and other industrial facilities across the country, the emails and documents show. That would most likely lower costs for companies while resulting in dirtier air."

A EPA pretende deixar de monetizar os benefícios para a saúde, argumentando que essas estimativas criam uma “falsa precisão”. O resultado prático é óbvio: se só se medem custos, todas as regras passam a parecer excessivas. A realidade não muda. Muda apenas a forma como é apresentada — e, por isso mesmo, como é decidida.

Este caso é um excelente espelho do que acontece todos os dias dentro das organizações.

Na ISO 9001 e na ISO 14001, fala-se muito de indicadores. Mas fala-se pouco sobre a escolha dos indicadores. E essa escolha nunca é neutra. Quando uma organização mede apenas custos, desvios, reclamações ou incumprimentos, está a treinar a gestão para se defender, não para criar valor. Quando mede apenas o que é fácil, imediato ou financeiramente directo, empurra para fora do radar tudo o que é difuso, sistémico e de longo prazo.

O problema é que o que não entra no sistema deixa de contar. E o que deixa de contar deixa, mais cedo ou mais tarde, de ser protegido, investido ou melhorado.

Há aqui uma lição desconfortável para gestores e responsáveis de sistemas de gestão: retirar um indicador não é um acto técnico; é um acto estratégico. Significa dizer à organização o que é importante e o que não é. Significa orientar decisões futuras, muitas vezes sem que ninguém o admita explicitamente ou até tenha consciência disso.

A gestão por indicadores não falha porque mede mal. Falha porque mede pouco ou apenas um dos lados do balanço. Tal como uma análise custo-benefício que ignora benefícios, um sistema de gestão que ignora valor cria uma ilusão de rigor enquanto empobrece a decisão.

No fundo, o caso da EPA lembra-nos algo essencial: não medir benefícios não os elimina; apenas os torna invisíveis. E sistemas que decidem com base no invisível tendem a decidir mal — seja num regulador ambiental, seja numa organização certificada.

Medir é sempre uma escolha. E escolher o que medir é, talvez, a decisão de gestão mais estratégica de todas. Como não recordar a 2ª geração do balanced scorecard, o que medir deve estar alinhado com a estratégia, com a missão da organização. 

 

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