O NYT de ontem publicou um artigo sintomático dos tempos que correm: "If You Can't Teach Plato in a Philosophy Class, What Can You Teach?":
"Martin Peterson, a Texas A&M University philosophy professor, was presented last week with a choice straight out of a dystopian novel. To bring his class in line with a prohibition on course materials that "advocate race or gender ideology," he could either censor the part of his course that included readings from Plato, or he could teach a different class.
The case illustrates the extent to which campus censorship has run amok in Texas: If some of Plato's texts can't be taught in a college philosophy course, what, exactly, can be taught?"
Universidades sem leitura crítica, nem confronto de ideias, nem sequer coragem intelectual. Exigem apenas prudência administrativa. Chama-se mitigation.
Na Texas A&M, um professor de filosofia foi informado de que poderia continuar a leccionar — desde que aceitasse “mitigar” o seu curso. A solução era simples e elegante:
“remove the modules on race ideology and gender ideology, and the Plato readings that may include these.”
Platão, afinal, tornou-se um risco operacional.
O problema não está no que Platão diz, claro. O problema é no que ele pode levar os estudantes a discutir. E discutir, como sabemos, é perigoso. Especialmente quando envolve ideias antigas, complexas e resistentes a slogans. Mais seguro é evitar.
A pergunta que o autor coloca é, por isso, excessivamente directa:
“If some of Plato’s texts can’t be taught in a college philosophy course, what, exactly, can be taught?”
A resposta implícita parece ser: qualquer coisa que não incomode ninguém relevante.
Convém esclarecer que não estamos a defender que ideias controversas sejam aceites sem crítica. Pelo contrário. Mas aí está, precisamente, o problema. Como o próprio texto recorda:
“The point isn’t that these concepts should just be accepted or go unchallenged; it’s that challenging them through robust give-and-take is what universities are for.”
Ora, robust give-and-take é precisamente o que se tenta evitar. Dá trabalho. Gera atrito. Produz queixas. Obriga a liderança universitária a defender princípios em vez de procedimentos. E isso, num contexto de escrutínio político permanente, é um luxo dispensável.
A solução encontrada é engenhosa: enterrar os clássicos.
“Texas A&M seems to have concluded that the safest way to handle the ideas contained in a classic text is to bury them.”
Nada de novo, afinal. Se uma ideia é difícil, remove-se. Se um texto é ambíguo, corta-se. Se uma discussão pode sair do guião, mitiga-se. É uma gestão de risco irrepreensível — desde que a missão da universidade seja evitar problemas, e não formar pessoas capazes de pensar.
O autor, talvez ingénuo, insiste que isto não é forma de gerir uma instituição de ensino superior:
“This is no way to run an institution of higher education.”
Mas talvez estejamos a exigir demasiado. Talvez a universidade do futuro não seja um espaço de confronto intelectual, mas um ambiente cuidadosamente higienizado, onde ninguém se sente desconfortável porque ninguém pensa demasiado fundo.
O aviso final está lá, claro, mas também esse é incómodo:
“Once censorship starts at the margins, core freedoms are next.”
Felizmente, isso é apenas teoria. Tal como Platão.
E, como aprendemos agora, teoria é precisamente o tipo de coisa que convém mitigar.
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