quinta-feira, agosto 13, 2026

Curiosidade do dia


O FT de hoje publica um artigo de um dos meus colunistas preferidos, Janan Ganesh, "Why must a socialist also be woke?":
"In the end, the hard left will always pair a conceivably popular economic programme with a provably hated cultural one. The mystery is why.
...
In 2026, the rich are lucky in their enemies. If a politician could decouple socialism from the set of cultural ideas known as "woke", he or she would be difficult to stop
...
One day, a political entrepreneur will notice the unmet demand for a culturally moderate-to-conservative socialism. At that point, the game will be on.[Moi ici: Come on, Ganesh, está à tua frente, não vês?]"

Ganesh parte do crescimento da esquerda socialista nos Estados Unidos, exemplificado por Mamdani e pelos Democratic Socialists of America. Na sua opinião, a principal fragilidade eleitoral deste movimento não está nas propostas económicas, que podem ser populares, mas na agenda cultural que as acompanha. Muitos trabalhadores favoráveis a políticas redistributivas mantêm posições conservadoras em matéria de criminalidade, imigração, identidade nacional e costumes. 

Ganesh pergunta por que razão um socialista também tem de ser woke. O Chega, em Portugal, e o Rassemblement National de Marine Le Pen, em França, por exemplo, descobriram a resposta: não tem. Ambos combinam um discurso culturalmente conservador, sobre imigração, segurança, identidade nacional e costumes, com políticas económicas que, se fossem apresentadas pela esquerda, seriam facilmente classificadas como socialistas. O Chega quer manter a TAP nas mãos do Estado, reduzir a idade da reforma, aumentar as pensões e eliminar as portagens. Em França, Le Pen defende o proteccionismo, a intervenção do Estado, a redução da idade da reforma e a protecção do poder de compra.

Estes partidos podem proclamar-se de direita, mas uma parte crescente da sua proposta económica assenta na intervenção pública, na redistribuição e na protecção dos cidadãos contra o mercado. O que os distingue da esquerda já não é necessariamente o papel atribuído ao Estado. É a delimitação da comunidade à qual essa protecção se destina. 

Durante décadas, a esquerda tratou a protecção económica e o progressismo cultural como componentes inseparáveis da mesma proposta. O Chega e Le Pen perceberam que uma parcela significativa das classes populares deseja o primeiro e rejeita o segundo. Apropriaram-se, por isso, de instrumentos económicos tradicionalmente associados à esquerda e combinaram-nos com fronteiras, autoridade e identidade nacional. Talvez não seja a direita que se tenha tornado socialista em tudo; mas aprendeu a oferecer socialismo económico sem exigir progressismo cultural, e essa combinação está a transformar o mapa eleitoral europeu.

Sem comentários: