A propósito de "Fórum BCE: imigração traz mais produtividade às economias, conclui estudo".
Olhando para a situação portuguesa, é fácil desconfiar do título e do conteúdo do artigo do Público. A manchete transforma uma análise econométrica prudente numa conclusão quase política: "imigração traz mais produtividade". O próprio estudo é mais cauteloso do que o artigo do Público deixa transparecer.
Economias que crescem, investem e criam emprego atraem mais imigrantes. Logo, parte do efeito pode ser: a produtividade atrai imigração, e não apenas a imigração cria produtividade. O estudo tenta lidar com isto usando choques, políticas e variação regional, mas não elimina totalmente o problema. Os próprios autores admitem limitações empíricas e que não têm uma estratégia de identificação ideal.
Este é um ponto essencial que a leitura jornalística tende a diluir. O estudo afirma que os coeficientes positivos vêm sobretudo da imigração altamente qualificada; já a imigração menos qualificada aparece como neutra, com coeficientes próximos de zero e sem significância estatística para a produtividade, a TFP e o capital por trabalhador. Isto torna abusivo usar o estudo para defender, genericamente, “mais imigração”, sem discutir a composição, as qualificações, os sectores e a integração. (European Central Bank - página 26)
O autor pode defender politicamente uma combinação de imigração qualificada e não qualificada. Mas o próprio estudo mostra que a produtividade está mais claramente associada à imigração qualificada. A imigração menos qualificada pode ser necessária para a agricultura, a construção, a hotelaria, os cuidados ou a demografia, mas isso é outro argumento. Não é a mesma coisa que provar o aumento da produtividade.
O artigo transporta a discussão para Portugal, mas o estudo não prova que a imigração recente em Portugal esteja a aumentar a produtividade portuguesa. Portugal tem um problema específico: muita imigração recente entrou em sectores de baixos salários, baixa produtividade e elevada intensidade de trabalho. Se a imigração permite adiar automação, reorganização produtiva e subida na escala de valor, pode até aliviar empresas no curto prazo e atrasar a produtividade no médio prazo.
A imigração pode contribuir para a produtividade quando é bem seleccionada, bem integrada, ligada a investimento, competências, empreendedorismo e capacidade institucional. Mas imigração em massa, mal planeada, concentrada em sectores pouco produtivos e sem habitação, fiscalização laboral e integração não é uma estratégia de produtividade. É apenas aumento de mão-de-obra disponível.
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