Sozinhos perante o quê? Não ficarem sozinhos perante a necessidade de mudar?
Ninguém diz ao filho de 5 anos que a festa de Natal foi uma valente porcaria. Os pais batem palmas, sorriem, tiram fotografias, dizem que esteve tudo muito bonito. E talvez devam fazê-lo. A criança está a aprender.
Mas uma economia não tem 5 anos. Um sector económico não tem 5 anos. A agricultura portuguesa não pode ser tratada como uma criança que precisa de paninhos quentes, palmas e diplomas de participação.
Os agricultores merecem respeito. Precisamente por isso, merecem uma conversa adulta.
Ser agricultor é difícil? É.
Há intempéries, custos de energia, de fertilizantes e de combustível, pressão da distribuição, concorrência externa e regras europeias? Há.
Há produtores com tecnologia, capacidade empreendedora e produtos excelentes? Claro que há.
Mas nada disso elimina a pergunta essencial: que agricultura portuguesa consegue ter futuro sem viver pendurada na comparação permanente com os apoios dos outros?
Porque uma coisa é apoiar a transição. Outra coisa é subsidiar a ausência de transição.
Talvez a melhor forma dos agricultores não ficarem sozinhos seja esta: não os deixar sozinhos perante a verdade.
A verdade de que:
- nem todas as culturas têm futuro;
- nem todos os modelos de negócio são viáveis;
- vender mais volume não é o mesmo que criar mais valor;
- competir apenas por custo, num país da União Europeia, é uma estratégia dominada;
- a agricultura com futuro não será necessariamente a agricultura que queremos preservar por nostalgia.
O país pode continuar a bater palmas à festa de Natal. Pode dizer que a qualidade é magnífica, que a resistência é admirável, que os agricultores são heróis, que não podem ficar sozinhos.
Ou pode começar a falar com eles como adultos.
Talvez a única pergunta que interessa: Que apoios ajudam os agricultores a mudar — e que apoios apenas os ajudam a adiar a mudança?


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