sábado, maio 09, 2026

Curiosidade do dia

O Telegraph de hoje publica o artigo "Curtain comes down on opera after single moan over 'colonialism'".

O artigo relata que o Minack Theatre, na Cornualha, cancelou uma produção da ópera Lakmé, de Léo Delibes, depois de uma queixa apresentada por um activista hindu, que considerou a obra profundamente problemática por reflectir exotismo colonial, atitudes orientalistas e estereótipos sobre tradições orientais. O teatro justificou a decisão, dizendo que já tinha preocupações quanto à forma como a ópera tratava de questões culturais e religiosas, reconhecendo que certas obras antigas contêm referências desactualizadas e sensibilidades culturais hoje difíceis de aceitar.

O cancelamento da ópera Lakmé, após críticas ao seu alegado exotismo colonial, é um sinal dos tempos. Obras criadas noutros séculos, com a linguagem e os pressupostos da sua época, começam a ser julgadas não como património cultural complexo, mas como objectos moralmente suspeitos.

Dentro de alguns anos, não será surpreendente que algo semelhante aconteça em Portugal com "Os Lusíadas". Dir-se-á que Camões usa linguagem violenta, vilipendia os “sarracenos”, glorifica a expansão portuguesa e reflecte uma visão colonial, religiosa e guerreira incompatível com as sensibilidades actuais. A obra será classificada como "problemática", depois "contextualizada", depois talvez reduzida a excertos cuidadosamente escolhidos.

O problema não está em discutir criticamente Os Lusíadas. Isso é necessário. O problema está em transformar a crítica numa desculpa para deixar de ler. Uma sociedade madura consegue reconhecer, na mesma obra, génio literário, beleza poética, violência histórica, fé, propaganda e contradição. Uma sociedade infantil exige que o passado peça desculpa ao presente.

Se só aceitarmos conservar as obras antigas depois de as purificar segundo os critérios morais de hoje, não ficaremos com uma cultura mais justa. Ficaremos com uma cultura mais pobre, mais medrosa e menos capaz de compreender a complexidade da história.




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