sábado, maio 16, 2026

Curiosidade do dia

 Isto é doentio ...

Há qualquer coisa de profundamente reveladora quando o chanceler da Alemanha olha para a Suíça e a primeira coisa que vê são mais 200 horas de trabalho por ano.

Não estamos a falar de um comentador de café, nem de um daqueles diagnósticos apressados feitos entre dois cafés e uma torrada. Estamos a falar do chanceler alemão. A maior economia industrial da Europa. De um país que construiu a sua reputação em torno da engenharia, da qualidade, da especialização, da capacidade exportadora e da sofisticação produtiva.

E, no entanto, a conversa desce rapidamente para a quantidade de horas trabalhadas.

Claro que as horas contam. Ninguém cria riqueza no sofá. Mas há uma diferença enorme entre discutir o trabalho como esforço acumulado e como capacidade de criar valor. A pergunta decisiva não é apenas: "quantas horas trabalhamos?" A pergunta mais importante é: "Que valor acrescentado conseguimos gerar em cada hora de trabalho?"

A Suíça não é mais rica apenas porque trabalha mais horas. É mais rica porque está posicionada em sectores, actividades, marcas, tecnologias, serviços e cadeias de valor onde cada hora tende a valer mais. A questão central não é o cronómetro. É a posição na escala de valor.

Quando uma economia começa a discutir o futuro como se o problema principal fosse apenas trabalhar mais tempo, há algo de errado na escala de prioridades.

O desafio deveria ser outro: como subir na escala de valor? Como aumentar o valor acrescentado? Como criar produtos, serviços, conhecimento, marcas, processos e modelos de negócio que permitam pagar melhores salários, suportar melhores margens e competir com base na diferenciação, não apenas no esforço?

Trabalhar mais pode aliviar sintomas. Subir na escala de valor ataca a doença.

Uma economia que responde à estagnação apenas com mais horas corre o risco de transformar a sua força de trabalho numa solução de emergência. Uma economia que responde com inovação, produtividade, especialização e valor acrescentado transforma a sua força de trabalho numa vantagem estratégica.

Por isso, quando o chanceler da Alemanha reduz a comparação com a Suíça a uma questão de horas, a pergunta não é apenas económica. É quase cultural. O que aconteceu à ambição industrial alemã? O que aconteceu à obsessão pela engenharia, pela diferenciação, pela excelência operacional, pela tecnologia, pela qualidade percebida, pela capacidade de estar nos degraus superiores da cadeia de valor?

Como em Hamlet, talvez o problema não esteja apenas nos trabalhadores, nas horas ou nos hábitos laborais. Talvez haja algo de podre no reino da Dinamarca — ou, neste caso, na forma como uma grande economia industrial começa a diagnosticar a própria decadência. 

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