segunda-feira, março 23, 2026

Curiosidade do dia

Ontem, a meio da tarde, apanhei isto no Twitter.

E pensei, à boleia daquele "Por que não lhes mente"?

Pensei não; foi antes um turbilhão de ideias. 

Por exemplo, recordei um artigo do FT de Sábado, "A prosperous UK means facing up to trade-offs", e vários postais do tempo de Sócrates. Por exemplo:
Voltemos ao "Por que não lhes mente"? 

Porque esta frase dá-lhe uma imagem de franqueza.

Em vez de prometer que é possível aumentar tudo ao mesmo tempo sem custos nem escolhas, Passos Coelho prefere dizer que isso não é verdade. Com isso, apresenta-se como alguém que fala de forma dura, mas honesta.

Mentir talvez fosse mais fácil no curto prazo. Mas dizer uma coisa incómoda pode dar-lhe outra vantagem: parecer mais sério, mais realista e mais credível perante quem acha que a política tem promessas a mais e verdade a menos.

No fundo, ele fala assim porque este tom directo faz parte da imagem política dele. Tanto Passos Coelho como o texto do Financial Times estão a dizer que a política séria começa quando se admite que há trade-offs. Ou seja, que não se pode aumentar tudo, proteger tudo, investir em tudo e reformar tudo ao mesmo tempo, sem custos, sem prioridades e sem perdas em nenhum lado. Quando penso em prioridades, recuo sempre a uma capa do Diário Económico em que o presidente Sampaio dizia que tudo era prioridade... enfim, malta de Direito.

O artigo do FT,  diz precisamente que uma economia mais próspera exige enfrentar escolhas difíceis e critica a tendência dos governos para fugirem delas em nome da conveniência política de curto prazo. É exactamente aí que a frase de Passos encaixa. Quando ele diz que afirmar que nenhuma despesa social deixará de ser feita para responder à defesa ou à transição energética “é mentira”, está a traduzir para português político a mesma ideia central: recursos são escassos, prioridades colidem, e prometer que ninguém perderá nada é, no mínimo, esconder o custo das escolhas. 

O FT escreve que a prosperidade exige encarar trade-offs. Passos Coelho diz que fingir que eles não existem é mentir. O FT não fala apenas de cortar ou não cortar despesa social. Fala de trade-offs em várias frentes: crescimento versus cálculo político de curto prazo, reforma versus medo eleitoral, flexibilidade versus regulação, e até da dificuldade de construir apoio social e empresarial para mudanças duras. A ideia não é apenas “faltará dinheiro”; é também “faltará coragem política e capacidade de formar consensos para escolher”. 

Passos Coelho condensa tudo numa formulação muito mais frontal e mais polarizadora. Ele transforma um problema estrutural de escolha colectiva numa frase de combate: se dizem que não haverá sacrifícios noutro lado, estão a mentir. Isso torna a mensagem politicamente mais forte e mais memorável.



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