sábado, janeiro 17, 2026

Curiosidade do dia

Primeiro, recordei as palavras, na televisão, de uma reformada a queixar-se, perante um candidato presidencial, de que tinha de apoiar a filha porque ela não ganhava o suficiente.

Depois, recordei este vídeo:

Depois, recordei a definição de rinoceronte cinzento: Rinoceronte cinzento designa um risco altamente provável, altamente impactante e amplamente visível, que está à frente de todos, mas é ignorado, adiado ou minimizado por desconforto, inércia, interesses instalados ou excesso de confiança.

A imagem é deliberada: não é um animal raro nem imprevisível. É grande, está à vista, vem na nossa direcção… e, mesmo assim, fingimos que não está ali.

Depois, recordei Billy Bixbee e se existem dragões ou não.


Tudo desencadeado pela leitura de "Can Europe afford its state pensions?" publicado no FT do passado dia 15 de Janeiro.

A cena da reformada, em directo na televisão, a explicar a um candidato presidencial que tem de ajudar a filha porque ela “não ganha o suficiente”, é um momento de verdade. Não é um desabafo isolado. É o sintoma visível de um problema estrutural que toda a gente vê, toda a gente conhece — e que a política insiste em empurrar para a frente.

O Financial Times descreve-o com frieza: 

"Across the EU, 47 per cent of the blocs social protection expenditure is spent on old age and survivors' benefits, ahead of 36.7 per cent spent on sickness and disability and 8.7 per cent on families and children.

... 

Italy has the EU's highest pension costs at just over 15 per cent of GDP, according to statistics from the European Commission. France and Greece each spend more than 13 per cent. In Germany, a third of all federal tax revenue will be spent plugging holes in the state pension system this year, according to an estimate by Munich economic think-tank Ifo."

a Europa envelhece rapidamente, gasta quase metade da despesa social em pensões e assenta o seu contrato social em pressupostos demográficos que já não existem. Nada disto é inesperado. Nada disto é imprevisível. É um rinoceronte cinzento em marcha lenta: grande, óbvio, altamente provável e altamente destrutivo. E, ainda assim, ignorado.

A cobardia política é evidente. Reformar pensões custa votos; por isso, prefere-se adiar. Fala-se de crescimento futuro, de imigração salvadora, de ajustes marginais. Tudo serve para não dizer a verdade simples: o sistema promete mais do que consegue pagar sem sacrificar quem ainda trabalha. O resultado é um jogo perverso de empurrar custos para as gerações seguintes, enquanto se protege o presente eleitoral.

Mas há uma segunda dimensão, menos confortável de admitir. Não é só cobardia política. É também ganância geracional. Uma parte significativa dos eleitores mais velhos exige que nada mude, mesmo quando isso implica salários baixos, impostos elevados e precariedade crónica para os mais novos. Exige direitos “adquiridos” num mundo que já desapareceu, enquanto aceita — ou ignora — que os filhos e netos nunca terão as mesmas condições.

É aqui que a imagem do rinoceronte se cruza com a velha pergunta de Billy Bixbee: existem dragões ou não? Claro que existem. Chamam-se demografia, aritmética e tempo. Não cospem fogo, mas fazem algo pior: corroem, silenciosamente, a confiança entre gerações. Fingir que não estão ali não é prudência; é irresponsabilidade.

Enquanto a política continuar a tratar este problema como tabu, o contrato social vai desfazer-se pela base. E quando os jovens perceberem que trabalham para sustentar um sistema que nunca os sustentará a eles, já não estaremos a discutir pensões. Estaremos a discutir legitimidade.



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