quinta-feira, março 13, 2014

Mudar de vida

Ontem, o Jornal de Negócios, trazia um artigo de duas páginas intitulado ""Agora é assim. Ficamos a olhar para o boneco o dia inteiro"":
"O consumo cresceu no último trimestre de 2013, garante o INE, mas os pequenos comerciantes do bairro de Benfica, em Lisboa, dizem que a retoma não passou por ali. Nem está a passar. Há dias inteiros em que não abrem a caixa nem atendem clientes."
Faço um convite à reflexão:

- Até que ponto a quebra na procura, de que os comerciantes entrevistados tanto se queixam, não passa por não se estarem a adaptar às mudanças na vida dos clientes e dos seus gostos?
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Se os clientes consomem menos marisco na "Cervejaria", porque não adaptar o menu às carteiras?
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Atribuir a quebra na procura à crise, desculpabiliza-nos e retira-nos pressão para mudar, para nos adaptarmos. Afinal, a crise não é, não será eterna, se ficarmos quietinhos e aguentarmos, quando ela acabar vamos colher os frutos desse tempo de sacrifício. Isso é, também, acreditar que os clientes não mudam durante uma crise, e que voltarão a ser os mesmos.
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Não negando a quebra agregada na procura, prefiro acreditar que um empresário deve procurar fazer a diferença, para melhor se ajustar à migração de valor realizada pelos seus clientes.
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É assim que nascem novos modelos de negócio, por exemplo.

10 comentários:

Carlos Albuquerque disse...

"Afinal, a crise não é, não será eterna, se ficarmos quietinhos e aguentarmos, quando ela acabar vamos colher os frutos desse tempo de sacrifício."

"Eterna" é muito tempo.

Mas há duas maneiras da crise acabar: ou seguindo todas as regras de aumentar a austeridade e pagar a dívida ou através de um cisne negro qualquer.

No primeiro caso parece não haver volta a dar: a crise vai durar no mínimo mais 20 ou 30 anos. Pode ser muito tempo para ficar quieto e aguentar.

O segundo caso obviamente só será surpreendente para quem acreditar que o primeiro é solução.

João Pinto disse...

Podemos sempre fazer uma revolução. Obrigamos os clientes a comprar-nos. Se trabalharmos para o Estado, podemos protestar e obrigar os outros a trabalharem e descontarem mais para que o nosso esteja garantido.

Esta é a outra solução.

Maldita crise e maldita seja a concorrência, que nos obriga a tranbalharmos para sermos melhor do que os outros. Bom bom é viver em Cuba e na Coreia do Norte, onde não há crise, nem protestos e todos vivem felizes.

Carlos Albuquerque disse...

Caro João Pinto,

Se puser um burro a trabalhar sem comer, ele morre de qualquer maneira, mesmo que lhe faça um discurso a dizer que viver mal é melhor do que morrer.

Se puser peso a mais numa estante e lhe fizer um discurso sobre a obrigação de suportar mais peso, a estante cai na mesma.

Fez as contas às taxas de crescimento do PIB, aos saldos no Orçamento de Estado e às condições de vida dos portugueses necessários para pagarmos a dívida sem reestruturações?

João Pinto disse...

Caro Carlos,

Se fizer um discurso ao burro a dizer que ele vai muito que comer, e que não necesita de fazer nada para isso, ela vai morrer na mesma - um dia os outros burros fatar-se-ão de sustentar aquele burro.

Se a estante aguentou tanto tempo com peso a mais (imposto confiscado aos burros trabalhadores), talvez esteja mais perto do que nunca de partir.

Eu fiz as contas e cheguei à conclusão que não podemos continuar a ter défices todos os anos; que o PIB não cresce por decreto (se assim fosse, Portugal teria sido o rei do crescimento na última década; foi exatamente o contrário); também concluí que, à semelhança do que pensa o tribunal constitucional, o princípio da igualdade deve ser aplicado. Todos têm de trabalhar 40 horas; todos têm de pagar com desemprego; todas as entidades, públicas e privadas (incluindo o Estado), têm de viver com o que têm (uma empresa que não tenha viabilidade fecha e os funcionários vão para o desemprego).

Carlos Albuquerque disse...

Caro João Pinto,

Tudo o que diz só mostra que a reestruturação é inevitável. Para quê adiá-la, se quanto mais tarde for feita mais cara será?

João Pinto disse...

Há uma forma de baixar o peso dos juros, sem ir pelo caminho da Grécia ou da Argentina: baixar despesa. No entanto, a diminuição da despesa, como se vê, provoca muita gritaria.

Os que ganham mais e trabalham menos são os que mais se revoltam.

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/fmi_austeridade_em_portugal_cortou_aos_ricos_o_dobro_do_que_tirou_aos_pobres.html

Como se vê pelo artigo, são os protegidos (e que ganham mais trabalhando menos) que mais gritam.

CCz disse...

http://www.publico.pt/economia/noticia/a-brigada-do-reumatico-1628308

Carlos Albuquerque disse...

Se Vasco Pulido Valente garante que a dívida é sustentável, como poderemos duvidar? Sobretudo depois de ver os cálculos e estimativas que ele apresenta.

Quanto a reduzir o peso dos juros reduzindo despesa é efectivamente o único caminho, quanto mais não seja reduzindo a despesa com pagamento de juros. O estado português está enredado em múltiplos contratos e não consegue cumpri-los todos. Imagino que o João Pinto esteja a pensar em reduzir a despesa com salários e pensões pois atingindo pessoas com menos capacidade de levar o estado a tribunal há uma maior expectativa de passar impune. Acresce que um milhão de funcionários ou reformados não asseguram cargos decorativos em empresas a ganhar 50000 euros por mês. Em contrapartida favorecer uma grande empresa assegura a contratação dos futuros ex-governantes para cargos muito interessantes.

O que o João Pinto não estima é o impacto na vida das pessoas dos cortes em salários e pensões necessários para que o estado tenha défice nulo. E não, não me refiro a essa preocupação lamechas de considerar que a economia é para as pessoas e não as pessoas para a economia. Refiro-me ao efeito presente e a prazo de um desemprego elevado e de falta de um sistema de saúde e de um sistema educativo minimamente funcional. Acontece que se os cortes fossem levados até onde o João Pinto imagina, o PIB continuaria a cair uma boa parte do tempo, a sociedade seria muito mais instável e lá se ia qualquer hipótese de tornar a dívida sustentável.

Quanto aos que ganham mais trabalhando menos, os capitalistas que asseguram rendibilidades escandalosas a troco de riscos para o estado, esses não precisam de gritar. Têm os políticos mais influentes na mão e os seus negócios assegurados.

CCz disse...

http://www.zerohedge.com/news/2014-03-14/it-begins-past-week-foreigners-sell-record-amount-over-100-billion-treasurys-held-fe?page=3&fb_action_ids=10150391343914999&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B498630256925626%5D&action_type_map=%5B%22og.likes%22%5D&action_ref_map=%5B%5D

Carlos Albuquerque disse...

http://www.publico.pt/economia/noticia/a-raiva-que-o-manifesto-dos-70-provocou-1628297?fb_action_ids=531299883653507&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline&action_object_map=[221692621354928]&action_type_map=[%22og.recommends%22]&action_ref_map=[]