sexta-feira, janeiro 18, 2008

Eu tento... eu tento

Como é que se pode ser optimista quando se encontra, no Jornal de Negócios, uma notícia deste calibre "Portugal e Espanha vão construir carro amigo do ambiente".

"Portugal e Espanha vão dar as mãos para fazerem do eixo Norte de Portugal/Galiza uma região especializada na produção de veículos de pequenas séries, associados a nichos de ambiente urbano.
O primeiro passo para a concretização deste desígnio ibérico vai ser dado esta tarde, em Braga, durante a Cimeira Luso-espanhola, com o estabelecimento de um acordo de colaboração entre os dois países, soube o Jornal de Negócios."

Nos tempos que correm, tempos de excesso de oferta, tempos em que o mais fácil é produzir, uns iluminados governamentais, acham que podem gastar uns milhões dos contribuintes a tentar brincar aos fabricantes de automóveis... gostava de saber o que é que eles sabem a mais que a Renault, a Opel, a Citroen, a VW, a Seat, a VW, a Toyota, a Hiundai, a... não sabem!

7 comentários:

Bruno Silva - Inovação & Marketing disse...

Discordo completamente da sua opinião!!

Se fosse assim não inovariamos em praticamente nenhum sector, já que existem imensas empresas instaladas!

Só se pode congratular o investimento em I+D+I!!

Hoje em Braga, é também lançado um centro de investigação ibérico em nanotecnologias.

Excelentes notícias!

"Se calhar" pelo facto de as empresas nacionais investirem 8 vezes menos na I+D+I do que os países nordicos é que o país anda em crise.

É preciso cortar sim, mas nos jobs for the boys!

cumprimentos

www.inovacaomarketing.com

CCz disse...

Caro Bruno,

Obrigado por ter aparecido, e por ter deixado um comentário.

Reconheço, como já por várias vezes escrevi neste espaço, que competir no mercado actual pelo preço-baixo, apesar de ser uma actividade perfeitamente respeitável, quase sempre está votada ao fracasso em Portugal, porque em poucos sectores teremos vantagens competitivas nesse campo.
Por isso, luto no dia-a-dia nas empresas deste país, para que apostem cada vez mais em propostas de valor que conjuguem ou serviço, ou inovação.
Só a aposta na inovação, ou no serviço à medida, pode aumentar o nosso nível de produtividade, para além das magras décimas que a redução de custos pode conseguir.

Estamos em campos opostos porque não estou de acordo que o estado seja um bom investidor, um bom decisor, um bom gestor no negócio dos automóveis.

Escreveu “Hoje em Braga, é também lançado um centro de investigação ibérico em nanotecnologias.” – Uma coisa é um centro de investigação, outra é uma unidade produtiva.

Veja, de acordo com o artigo de jornal, o projecto vai criar mais de (repare o de) 800 postos de trabalho qualificados. Quanto é que vão ganhar mensalmente esses trabalhadores qualificados? Vamos imaginar que vão ganhar em média 1500 euros (na Autoeuropa ronda os 1100 euros) 14 meses por ano, mais segurança social, deve rondar cerca de 22 milhões de euros por ano só em salários.

Agora, esqueça os outros custos fixos e nem ligue aos custos variáveis.

Segundo o artigo de jornal, vão ser produzidos até (repare até) 10000 veículos por ano.
Assim, só para salários cada carro custará no mínimo 2200 euros.

Agora acrescente os custos variáveis, agora acrescente os custos fixos, agora acrescente os impostos, agora acrescente o retorno dos 150 milhões de euros do investimento (a conseguir em quantos anos?), agora ...

Viva a inovação, mas a inovação feita por empresas, não pelo estado!

Basta olhar para os números, a Autoeuropa para 93609 carros produzidos em 2007, tem 2990 trabalhadores (rácio 31,4).(http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=272996&idselect=11&idCanal=11&p=200)

A Citroen de Vigo – hoje nas capas dos jornais – para 550000 carros produzidos em 2007 tem 9700 trabalhadores (rácio 56,7). (http://www.farodevigo.es/secciones/noticia.jsp?pRef=3237_10_193603__ECONOMIA-presidente-Citron-defiende-liderazgo-factoria-viguesa-pero-recortara-plantilla)

A nova empresa a criar, irá produzir no máximo 10000 carros por ano e terá pelo menos 800 trabalhadores (rácio 12,5). O que me levanta a interrogação – quem serão os clientes-alvo do novo carro? Por que é que esses clientes-alvo irão dar preferência a este novo carro? Por que é que a notícia do Jornal de Negócios só menciona os governos espanhol e português como financiadores? A CEIIA cria encontrar parceiros internacionais… não os encontrou? (http://www.ceiia.com/design/green4.html)

Adorava e celebrava, se esta notícia não mencionasse os governos e fosse apenas uma iniciativa privada. Assim, cheira-me a dinheiro extorquido aos saxões impostados para gastar em masturbações desligadas do mercado.

CCz disse...

Corrijo

A CEIIA queria encontrar parceiros internacionais… não os encontrou?

Bruno Silva disse...

Caro ccz

Não irei estar a efectuar um "plano de negócios" simplista já que não é em apenas 5 minutos que se pode concluir um possivel fracasso no investimento.

O sector ambiental tem enorme potencial. O projecto terá naturalmente os mercados estatais de portugal e de espanha para utilizar o automóvel nos seus serviços, mas terá de considerar sempre o mercado global como mercado de referência. Qualquer projecto actualmente que possa ser apoiado por capitais de risco e business angels tem de considerar essa abrangência.

Por exemplo, o UMM, um projecto muito menos ambicioso, encontrou mercado num nicho e subsistiu durante vários anos.

Quanto à sua análise não pode apenas considerar os benefícios financeiros, directos e palpáveis, já que:

- O projecto irá gerar uma maior aposta no desenvolvimento tecnológico que poderá ser aplicavel em muitos outros mercados. Uma tecnologia desenvolvida pode ter muitas mais aplicações e esses potenciais benefícios no imediato não podem ser contabilizados, mas existem.

- O projecto irá dar emprego a pessoas qualificadas e estreitar os laços dos centros de investigação e das universidades.

- O projecto corresponde a um "teste" de projectos conjuntos com Espanha, que tendo algum sucesso, poderá potenciar maior confiança para outros projectos conjuntos noutras áreas.

- O projecto poderá ajudar o mercado portugês de produção de componentes de automóvel que se encontra mais ameaçado com a concorrência internacional.

- Por outro lado, embora não tenha conhecimento da parte financeira deste projecto em particular, tenho a certeza de que o mesmo terá direito a muitos financiamentos do Programa Quadro da Uniao Europeia, e só ai as suas projecções financeiras saiem todas erradas. Muitos desses financiamentos são exactamente para projectos de cooperação internacional na área da investigação e desenvolvimento.

Mas o mais importante nem é a questão financeira, mas os imensos benefícios estratégicos relativamente ao fortalecimento do sistema de inovação portugues.

Como já tive a oportunidade de afirmar, existe muita coisa errada no país mas isso diz respeito aos jobs for the boys e ao excessivo investimento estatal corpóreo de pouca rentabilidade. (O chamado Betão!)

Agora é a hora de apostar no Conhecimento!

Cumprimentos

CCz disse...

Ok Bruno,

Quando me preparava para iniciar a apresentação de um anteprojecto de uma fábrica de produção de leveduras, para a panificação (o fermento de padeiro), no âmbito da disciplina de Anteprojecto, no meu último ano de faculdade, o professor desarmou-me logo à partida, quando me pediu, as contas de merceeiro.
Contas de merceeiro?
Sim, diga-me lá, em meia dúzia de contas de somar e sumir, se vale a pena avançar para o projecto ou não!

Um centro de nanotecnologia é uma organização sem fins lucrativos. Uma empresa de produção de veículos, é uma empresa, logo tem de ter fins lucrativos, logo tem de ser sustentável.

O investimento no betão não é um mal em si mesmo, é um mal quando não é reprodutível. O investimento numa empresa não é bom em si mesmo, é bom quando é o ponto de partida para uma actividade onde se investe, para trabalhar, para satisfazer clientes, para ganhar dinheiro, que depois se investe, para trabalhar,... e o ciclo fica sustentável, se como diz “o mesmo terá direito a muitos financiamentos do Programa Quadro da União Europeia,” era bom que uma vez terminados os apoios a empresa pudesse subsistir sem estar ligada à máquina.

O meu receio fundamenta-se num sentimento que hoje se materializou nas palavras de alguém que conhece bem a administração pública portuguesa, veja na página 43 do Público de hoje: “Portugal tem um défice de qualidade nas decisões públicas. É um problema muito antigo. As nossas decisões sobre investimento público são mal estudadas. Os custos são geralmente muito mal estimados e os benefícios muito exagerados. Há uma atitude muito fantasista.”

Se me falasse que o CEIIA ia ampliar o seu laboratório X, ou Y, era outra coisa.
Já agora, ando a ler um livro muito interessante, “The Innovator’s solution” e é engraçado que os autores, prevêem que no negócio dos automóveis, vai sofrer a mesma transformação que o dos computadores, o dinheiro, os lucros não irão para quem monta automóveis, mas para quem fabrica componentes.

Sem querer ser mal-educado, eu estou farto da treta dos políticos e dos so-called empresários que vivem à custa dos apoios do poder político, acho que todos devemos exigir resultados e, de vez em quando, fazer umas perguntas para ver se o rei vai nu, ou não.

Já imaginou qual seria a resposta da CEIIA à pergunta do meu professor, como é que daqui a 8 anos (já sem fundos comunitários) a empresa vai ser rentável? Faça-me umas contas de merceeiro, como se eu fosse muito burro. Já reparou que o ministro que esteve envolvido neste projecto foi o do Ambiente!

Bruno Silva disse...

Caro ccz

como disse no meu ultimo comentário existem muitos outros benefícios que vão para além do obvio e do imediato, e da mera análise financeira, e sobre isso você quase nem se referiu:

"- O projecto irá gerar uma maior aposta no desenvolvimento tecnológico que poderá ser aplicavel em muitos outros mercados. Uma tecnologia desenvolvida pode ter muitas mais aplicações e esses potenciais benefícios no imediato não podem ser contabilizados, mas existem.

- O projecto irá dar emprego a pessoas qualificadas e estreitar os laços dos centros de investigação e das universidades.

- O projecto corresponde a um "teste" de projectos conjuntos com Espanha, que tendo algum sucesso, poderá potenciar maior confiança para outros projectos conjuntos noutras áreas.

- O projecto poderá ajudar o mercado portugês de produção de componentes de automóvel que se encontra mais ameaçado com a concorrência internacional."


Já lhe tinha dito que a parte financeira imediata nem é a mais importante. Os benefícios enumerados são muito importantes e incalculáveis a longo prazo!

O mundo da inovação, da tecnologia, do conhecimento é um mundo bastante diferente das áreas tradicionais da gestão, e por isso mesmo temos de nos habituar todos nós a olhar para esse meio com outros olhos.... mesmo as pessoas que estão mais especializadas na parte da Gestão Analítica e de Operações.

Eu vejo o projecto como um pólo de desenvolvimento de conhecimento, tecnologia e inovação. Você ve o projecto como uma "fábrica"!

Aí reside a nossa divergência, e exactamente por isso é que manifestei a discordancia para com o que foi escrito por si, já que na minha opinião a sua análise não corresponde ao verdadeiro alcance deste tipo de projectos.

Tenho direito à opinião e exactamente por isso a manifestei.

Creio que fui muito claro na minha opinião, e os argumentos apresentados possibilitam que os leitores fiquem com a percepção de que existe outra análise divergente relativamente ao projecto em questão.

Nessa medida não existe necessidade de se estar a alongar o debate.

Cumprimentos

CCz disse...

"Eu vejo o projecto como um pólo de desenvolvimento de conhecimento, tecnologia e inovação. Você ve o projecto como uma "fábrica"!"

Caro Bruno, não podia estar mais de acordo consigo. Se virmos o projecto como um pólo, como o tal centro de nanotecnologia, então estamos perante uma organização sem fins lucrativos. E então, tudo o que aponta é verdade, porque numa organização sem fins lucrativos o mais importante é o cumprimento da sua missão. E o dinheiro, em vez de estar no topo como o resultado obtido, está na base como o orçamento necessário.
Contudo, o projecto é apresentado no Jornal de Negócios como um negócio, como uma fábrica. Uma fábrica é uma organização com fins lucrativos, por mais bonita que seja a ideia... tem de ser sustentável. Lembra-se do Complexo Agro-Industrial do Cachão?

Agradeço que tenha aparecido e que tenha deixado a sua opinião.
Espinosa dizia que um tirano pode tirar-nos tudo, mas não nos pode tirar a liberdade de pensar.
Popper dizia, Espinosa estava errado, se não comunicarmos uns com os outros, se não trocarmos ideias, não crescemos, não nos desenvolvemos. Obrigado pelas suas ideias.