"Vaidade das vaidades, dizia o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira uma pessoa de tantos trabalhos que tem neste mundo?
Uma geração vai, outra geração vem, mas a terra continua sempre a mesma. O Sol nasce e depois esconde-se; regressa cansado ao seu lugar, para dali voltar a nascer. O vento sopra para o sul e roda para o norte; o vento gira e vira sem parar."
Os três primeiros capítulos do Eclesiastes são uma escola de lucidez. O autor olha para a vida sem maquilhagem: as gerações passam, o sol nasce e põe-se, o vento dá voltas, os rios correm para o mar, o trabalho cansa, a sabedoria não elimina a dor, o prazer não basta, o sucesso não permanece. Tudo parece vaidade, sopro, coisa que nos escapa das mãos.
Mas esta lucidez não é desespero. É purificação.
O Eclesiastes desmonta a ilusão da posse. Mostra-nos que não somos donos do tempo, nem dos resultados, nem da memória que ficará de nós. Podemos trabalhar, construir, aprender, amar, decidir; mas não podemos aprisionar a vida. Há um tempo para nascer e um tempo para morrer, um tempo para plantar e um tempo para arrancar, um tempo para chorar e um tempo para rir. O homem age, mas não governa o todo.
E volto à oração do abandono...
Quando Charles de Foucauld reza "Pai, abandono-me nas tuas mãos", não está a fugir da vida. Está a aceitar a sua verdade. O abandono não é desistir de agir; é deixar de fingir que controlamos tudo. Não é cruzar os braços; é abrir as mãos. Não é desprezar o trabalho, o amor ou a responsabilidade; é vivê-los sem idolatrar o resultado.
O Eclesiastes ensina-nos que a vida é maior do que os nossos planos. A oração do abandono ensina-nos que essa grandeza não é apenas absurda ou vazia: pode ser confiança.
Entre "tudo é vaidade" e "faça-se a tua vontade" há um caminho espiritual muito exigente. Primeiro, deixamos cair a ilusão de domínio. Depois, aprendemos a entregar.
Talvez o abandono comece precisamente aqui: quando continuamos a fazer o bem que nos cabe, no tempo que nos foi dado, mas deixamos de exigir que a vida obedeça ao nosso guião.
E então a oração torna-se mais concreta:
Pai, faço a minha parte.
O resto, abandono nas tuas mãos.
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