quinta-feira, abril 16, 2026

Curiosidade do dia


Ontem, enquanto subia a correr umas rampas, comecei a ouvir este podcast, notável. Ainda vou a meio e há tantos temas e são abordados de forma invulgar. A certa altura é-nos colocada a questão:

- Qual é o problema dos pais escolherem o sexo e o perfil genético do filho?

Os participantes no podcast responderam: nenhum.

Eu comecei a pensar: e se todos os pais o fizerem? 

Desequilíbrios demográficos? Pressões sociais e culturais? Novas formas de desigualdade?

E depois a mente derivou para a economia.

Sou liberal em termos económicos. Continuo a acreditar que a liberdade económica, a concorrência, a iniciativa privada e a responsabilidade individual são, em regra, superiores à direcção burocrática da economia.

Mas há uma pergunta que me parece cada vez mais difícil de evitar: e se a soma de decisões economicamente racionais estiver a produzir resultados colectivamente destrutivos?

Uma empresa compra na China porque é mais barato. Faz sentido.
Duas também.
Milhares fazem o mesmo durante vinte anos e o resultado pode ser outro: perda de produção, perda de competência industrial, dependência externa, fragilidade estratégica. O que era racional à escala da empresa pode tornar-se ruinoso à escala da sociedade.

Este é um ponto incómodo para quem, como eu, valoriza o liberalismo económico. Porque o mercado coordena escolhas, mas não contém, em si, um princípio de temperança. Não tem um travão interno que diga: até aqui, sim; para além disto, começamos a destruir condições que depois não conseguimos reconstruir facilmente. 

O problema não é apenas industrial. É mais fundo. Há escolhas que parecem legítimas e inofensivas enquanto são excepcionais, mas que se tornam perigosas quando passam a ser a regra geral. O que um faz sem grande efeito, se todos fizerem, pode alterar profundamente o equilíbrio do conjunto.

É aqui que o liberalismo económico, tal como é frequentemente entendido hoje, revela uma fragilidade séria. Parte-se, demasiadas vezes, do princípio de que a soma dos interesses individuais, regida por regras gerais, produzirá uma ordem aceitável. Muitas vezes produz. Mas nem sempre. Sobretudo quando há externalidades pesadas, perda de capacidades estratégicas, ou dinâmicas em que o ganho privado imediato se transforma em erosão colectiva acumulada.

Falta-nos uma linguagem de contenção. Tudo no sistema empurra para mais: mais eficiência, mais arbitragem, mais escolha, mais optimização, mais velocidade. Quase nada educa para a prudência. Quase nada pergunta se aquilo que é vantajoso para cada agente, quando considerado isoladamente, continua a ser defensável quando se transforma em padrão social.

O mercado é uma ferramenta extraordinária. Mas não é uma filosofia moral completa. Não sabe, por si só, distinguir entre eficiência e sabedoria. Não sabe proteger automaticamente a base industrial de uma civilização, a sua coesão social ou os limites que impedem que a liberdade de uns destrua as condições de liberdade de todos.

Por isso, a questão não é abandonar o liberalismo económico. A questão é reconhecer que ele depende de algo que não consegue produzir por si: a temperança.

Sem temperança, a liberdade económica degrada-se em automatismo.
Sem temperança, o curto prazo corrói o longo prazo.
Sem temperança, o mercado pode acabar por destruir precisamente aquilo que o torna possível.

Talvez um dos grandes desafios do nosso tempo seja este: como preservar a energia criativa do liberalismo económico sem deixar que ela se transforme numa força cega, incapaz de reconhecer limites.

Porque uma sociedade não implode apenas por falta de liberdade.
Também pode implodir por falta de contenção.

Não tenho resposta, só perguntas e dúvidas.

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