Houve um tempo em que olhava para Inglaterra e via-se gente de outro calibre no governo (isto não tem nada a ver com política partidária, o Boris não é diferente do Starmer).
O governo inglês, incapaz de reduzir as despesas, entre outras medidas, resolveu alterar as business rates (um imposto municipal sobre imóveis usados para actividades económicas, uma espécie de IMI). Uma alteração “técnica”, desenhada no gabinete, validada numa folha de Excel e apresentada como inevitável.
As business rates subiam; a arrecadação aumentava e o orçamento agradecia. Só que havia um detalhe incómodo: no mundo real, milhares de pubs deixavam de sobreviver. Não era um aperto; era asfixia. Avisos houve, sinais também. Foram ignorados, até que o custo político de vários pubs começarem a fechar todos os dias começou a ficar maior do que o custo económico.
O recuo do governo veio tarde e a medo. Não como parte de uma estratégia, mas como um reflexo de sobrevivência. E, claro, abriu a caixa de Pandora: se os pubs merecem alívio, por que não os restaurantes? E os hotéis? De repente, a “excepção” passou a ser a regra. A política estava errada desde o início.
O episódio revela duas coisas. Primeiro, uma fé quase religiosa nas folhas de cálculo: quando os modelos dizem que funciona, a realidade é tratada como ruído. Segundo, uma falta gritante de coragem. Estratégia exige decidir antes da crise, explicar escolhas difíceis e aguentar a pressão. Aqui houve rigidez até arder, e cedência quando já não havia alternativa.
No fim, sobra pouco: sectores inquietos, credibilidade corroída e um governo reduzido a apagar fogos que ele próprio ateou. Governa-se com Excel, mas a economia insiste em existir fora das células e das fórmulas.


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