sábado, abril 28, 2007

Barking up the wrong tree

O DN de ontem (versão digital) trazia uma entrevista com alguém, um incógnito, sobre a produtividade, o texto pode ser encontrado aqui.

O título, IMHO, está carregado de subjectividade "É possível termos uma economia forte em 2009". Como? Com que bases? Como será possível lá chegar? O autor não explica! O que é uma economia forte? O autor não explica!

Retirei este trecho do início do artigo:

"Porque é que a produtividade cresce tão pouco em Portugal?
Por não termos tido no passado as políticas correctas, por não termos muitos empresários bons e por termos problemas de formação de base. A produtividade não é uma variável instrumental, susceptível de ser manipulada. Ela é a resultante de todos os processos na economia e na sociedade, de uma forma geral. Temos bloqueios ao nível da qualificação geral, mas o principal é a deficiência de liderança e de capacidade de organização dos factores produtivos. O "desenrascanço" imaginativo é um activo, mas, no mundo de hoje, já não chega."

Lendo o resto do artigo, percebe-se que quando o entrevistado fala de "políticas correctas", está a falar de "Pelo menos não há uma obsessão doentia com o défice, como no passado, que considero muito negativa."

Nem de propósito, um dos artigos que me fez companhia numa viagem de combóio na passada quinta-feira foi "The power of productivity" de William Lewis, publicado no "The McKinsey Quarterly" (Número 2 de 2004), o qual pode ser acedido aqui.

Deste artigo retirei alguns trechos:

"Economic progress depends on increasing productivity, which depends on undistorced competition. When government policies limit competition, even unintentionally, more efficient companies can't replace less efficient ones. Economic growth slows and nations remain poor."

Ou seja, uma economia forte depende do aumento da produtividade. Se a nossa produtividade se tem arrastado nos últimos anos, o que é que vai acontecer de diferente nos próximos meses, para em 2009 termos uma economia forte?
Ainda, quando os governos pensam em proteger os campeões nacionais, os centros de decisão nacional, estão a limitar a concorrência. Se não há concorrência, por que é que uma empresa há-de melhorar o seu desempenho?

"First, to understand why some countries are mired in poverty, it is necessary to look beyond broad macroeconomic policies, such as interest rates and budget deficits, and also consider the myriad zoning laws, investment regulations, tariffs, and tax codes that hold back the productivity of industries and tus a nation's prosperity."

"... the realization that the income level of a country is determined, above all, by the productivity of its largest industries"

"Poor countries don't have to wait until they build bigger and better school systems, and educate a whole generation of workers."
Para quem vê o que acontece à produtividade de um operário português na Suiça, ou na Alemanha, esta afirmação é clara como água.

"Competion is the key" ...
"The main obstacles to economic growth in poor countries are the many policies that distort competition." ...
"Countries follow bad policies, above all, because they benefit powerfull or well-connected people." ... (centros de decisão nacional)

"Think consumer"

Assim, quando comparamos o que diz o artigo do DN, com o artigo da McKinsey, concluímos que eventualmente o único ponto comum é a capacidade de organização intrinseca das empresas, no resto alguém está a "barking up the wrong tree".

E se a capacidade de organização interna das empresas não é a mais adequada à situação competitiva mundial actual, então elas serão menos eficientes, se são menos eficientes serão varridas da economia pelas mais competitivas... a menos que existam mecanismos protectores dos menos eficientes...

2 comentários:

Grifo disse...

Da leitura deste post não posso deixar de fazer as seguintes interrogações :
Será que o conteúdo do artigo do DN estará assim tão desfasado da realidade portuguesa ?
Será que a produtividade não depende fundamentalmente da "organização" reinante nas empresas ?
E porque será que o artigo da McKinsey tem mais valor que o do DN?
Não existirá em ambos os artigos pontos interessantes para a abordagem do tema?

CCz disse...

Caro grifo,

Obrigado por ter aparecido!
Obrigado pela sua opinião!

"Será que o conteúdo do artigo do DN estará assim tão desfasado da realidade portuguesa?"

IMHO está, quando o entrevistado refere que a produtividade: tem a ver com o défice; e tem a ver com a formação de base.

"Será que a produtividade não depende fundamentalmente da "organização" reinante nas empresas?"

Aí, ambos os artigos coincidem: no DN o entrevistado refere a produtividade é baixa "por não termos muitos empresários bons"; no artigo da McKinsey lê-se "If local businesses organized and managed themselves as the world's best companies do, they would unleash rapid productivity growth." e "If local businesses followed the proven approaches for organizing production and managing a workforce, poor countries could grow much faster than most people realize."

No entanto, se os empresários portugueses são tão maus assim (na óptica do entrevistado), então, numa economia de mercado livre, maus empresários, à frente de empresas pouco competitivas serão rapidamente arrastados para uma situação de falência e afastados do mercado. A menos que, como refere o artigo da McKinsey, as leis, regulamentos, as fiscalizações inexistentes, a inércia, ... protejam os menos competentes.

"E porque será que o artigo da McKinsey tem mais valor que o do DN?"
Aqui é uma opinião subjectiva, pura e dura. Não acredito no título do artigo do DN "É possível termos uma economia forte em 2009"... brincamos? Se temos o histórico que temos de evolução anual da produtividade nacional, que revolução está prevista, nos próximos 18 meses, para dar um salto e gerar uma economia forte.

Não acredito que o problema da economia portuguesa no seu todo (o somatório da micro economia), seja uma questão de falta de formação dos trabalhadores (como refere o DN e como refuta o artigo da McKinsey), nem acredito que seja por termos maus empresários. Os empresários não são bons nem maus, o mercado é que dita se eles são bons ou menos bons, se eles se mantêm, das duas uma, ou são bons, ou são protegidos por leis absurdas que distorcem a concorrência (como defende o artigo da McKinsey).

A minha opinião sobre o papel que os políticos deviam ter é esta ( http://balancedscorecard.blogspot.com/2007/04/objectivos-de-governo.html )(texto em inglês), montar o cenário, e não decidir quem é bom, quem deve ser protegido, quem...

"Não existirá em ambos os artigos pontos interessantes para a abordagem do tema?"


Naturalmente que sim.