sexta-feira, fevereiro 22, 2008

A prioridade

Palavras de Paulo Gomes, vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, acerca do preocupante nível de desemprego na região Norte:

"É preciso apostar no capital humano, requalificá-lo e reconduzi-lo para outras áreas, ter empresas com capacidade para competir internacionalmente, articular universidades com empresas" e "aproveitar muito bem os fundos comunitários que aí vêm".

(retirado do JN)

Senhor Paulo Gomes, não ponha o carro à frente dos bois!
Pode ter as pessoas mais qualificadas do mundo... não resolve nada.
By the way, não são os jovens licenciados o grupo que mais tem crescido entre os desempregados?

As pessoas com pouca ou muita qualificação estão na prateleira, estão na montra e não há massa crítica de clientes que as "levante e leve".

A prioridade é a iniciativa, a criação de clientes, ou seja, de empresas que depois precisarão de colaboradores.

A prioridade devia ser estudar o como, e depois, criar condições para fosse mais atraente criar empresas.

"A situação é tão séria, diz Paulo Gomes, que é preciso agir e rapidamente na região"

O Grande Paneador sabe o que fazer... já estou a imaginar mais meia-dúzia de IKEAS atraídas por concessões e benesses fiscais... parangonas para os jornais!
Resultados: escasso número de postos de trabalho directos criados (ás vezes apetece perguntar: E quantas empresas nacionais estão a ser prejudicadas, por não terem as mesmas benesses fiscais? Quantos desempregados são gerados?

Não é de atrair empresas que precisamos, é de criar condições para que espontaneamente "pessoas-comuns" comecem a criar empresas.

Adenda: http://www.etla.fi/files/1088_FES_04_1_creative_destruction.pdf

18 comentários:

Grifo disse...

Estou inteiramente de acordo com este seu post.
É necessário criar empresas que "precisem" de colaboradores qualificados.
Mas o nosso sistema financeiro não está vocacionado para apoiar jovens empresários sem historial bancário, independentemente da valia do seu projecto.
É quase um ciclo vicioso - sem garantias financeiras prévias não há financiamento, e sem este não há projecto/criação de emprego qualificado, etc...
Qual a sua sugestão para romper esta situação ?

1Links disse...

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CCz disse...

Não tenho soluções únicas.
Algo que eu tentaria fazer era acabar com as rendas da economia de bens não transacionáveis.
Muitos empresários nos últimos 20 anos (gente com capital) fizeram a opção certa (na óptica do seu capital), tendo em conta a nossa organização como país. Abandonaram a indústria e serviços onde tinham de competir e viraram-se para as parcerias garantidas com o estado, o que lhes assegura rendas interessantes sem concorrência. Se isso acabar... vão ter de se virar para outro lado.

Agora pergunto eu, dada a minha ignorância, e não podemos passar por cima, fazer o bypass ao nosso sistema financeiro? Se temos uma moeda comum, não é possível a um jovem empresário com uma ideia e um plano estratégico procurar financiamento no sistema financeiro de outro país da zona euro?

Experimente encher uma garrafa de 1 litro de volume, com 1 litro de água. Depois, pegue noutra garrafa de litro e encha com meio litro de água.

Pegue em 400g de sal de cozinha e introduza-o na primeira garrafa, e em 200g e introduza-o na segunda. Feche bem ambas as garrafas e agite violentamente, até conseguir que o sal sólido se dissolva completamente.
Há-de reparar que é na garrafa com meio litro de água que a dissolução é mais rápida.

Neste país, com o nível actual de impostos, estamos como a primeira garrafa.

Grifo disse...

Caro CCZ
Relativamente a este seu comentário pergunto : Do nosso universo empresarial, quantas empresas estarão a viver ao abrigo das rendas da economia de bens não transacionaveis?

Teoricamente, qualquer promotor poderá financiar-se no exterior. Todavia, na prática, a situação não é assim tão fácil, como saberá certamente.

Quanto à carga fiscal que limitará a competitividade das empresas nacionais, remeto para a prática seguida recentemente pelos nossos empresários do sector automóvel e dos ginásios, que transformaram a redução de impostos em aumento das suas margens.

Tenho para mim, que o principal problema da desvalorização do trabalho qualificado reside na falta de formação dos nossos empresários (na realidade mais patrões que empresários)e respectivas práticas de "gestão" completamente desasjustadas das realidades actuais.

Mas esta é apenas uma opinião de quem convive diáriamente com pequenas e médias empresas...

CCz disse...

"falta de formação dos nossos empresários"

Eles fazem o melhor que podem e sabem. Enquanto o mercado não lhes fechar as portas sobrevivem ao teste da realidade. E louvo-os por isso, com formação ou sem ela, estão na rua, arriscam, ganham e perdem.

Muita gente que oiço na televisão e leio nos jornais a criticá-los, não ousa vir ao terreno, não vem a jogo.

Afinal de contas, se eles são assim tão maus... porque não sao substituídos com maior rapidez?

Mais do que os trabalhadores ou os empresários, são as empresas.

Uma vez, um director de uma empresa perguntou-me: "Por que é que os meus colegas de grupo (nórdicos), têm tempo para tudo e as empresas ganham, e nós cá temos de andar sempre a correr e a fazer o trabalho de 2 ou 3, e as nossas empresas não ganham nada ou quase nada? Hoje se o voltasse a ver recomendava-lhe a leitura deste artigo fabuloso:
http://www.etla.fi/files/1088_FES_04_1_creative_destruction.pdf

CCz disse...

O link correcto é:

http://www.etla.fi/files/1088_FES_04_1_creative_destruction.pdf

CCz disse...

Vou colocá-lo no texto do postal como adenda

Grifo disse...

“Eles fazem o melhor que podem e sabem”

Não tenho qualquer dúvida a este respeito. E voltamos ao meu ponto base : Qual a qualidade média, em termos de “saberes” dos nossos empresários ? É manifestamente baixa, como o atestam todos os estudos efectuados.

Donde, e em meu entender, uma parte significativa do esforço de formação a realizar, deveria destinar-se aos empresários, pois são eles os responsáveis pela sorganizações que dirigem.

E como o CCZ diz, e bem, num outro postal - “A nossa organização de hoje, gera os resultados,actuais. Se queremos resultados futuros desejados diferentes... não há volta a dar, temos de mudar, temos de transformar a organização actual para criar a organização do futuro.”

E aquí a questão é a seguinte : Qual a resposta que os nossos empresários dão a tudo o que implique “mudança”, designadamente a deles próprios ?

Ainda e mais uma vez de acordo consigo, a questão da criação do valor/produtividade, deverá incidir sobre o numerador da equação. Mas mais uma vez, e pela minha experiência, a solução procurada é quase sempre a inversa. E é neste contexto que o tema desta nossa “conversa” sobre o emprego qualificado, volta a ser relevante. Qual a disponibilidade dos nossos empresários para empregar pessoal qualificado, para além do “contabilista” que lhe prepara os números para o fisco e/ou banca?

Também não tenho soluções na manga para resolver este problema, que em meu entender é cultural e geracional (e não fiscal). Mas entendo que a formação dos empresários ( e não há empresas boas sem bons empresários) deveria ser uma das áreas de intervenção, pública e/ou privada, no sentido de os dotar das ferramentas que lhes permitam construir as organizações do futuro.

CCz disse...

"E aquí a questão é a seguinte : Qual a resposta que os nossos empresários dão a tudo o que implique “mudança”, designadamente a deles próprios ?"
E
"Mas entendo que a formação dos empresários ( e não há empresas boas sem bons empresários) deveria ser uma das áreas de intervenção, pública e/ou privada, no sentido de os dotar das ferramentas que lhes permitam construir as organizações do futuro."

E quem é que define o que é um bom empresaário?
E vamos obrigá-los a ter formação em gestão?
A minha receita é, deixem o mercado funcionar. Que melhor incentivo do que aprender que não há papá estado que ajude a proteger ou subsidiar.
Esse é, IMHO, o único incentivo correcto. O mercado manda, o mercado é que decide. Quem não quer ficar para trás ou aprende, ou morre... de nada adianta ter os conhecimentos nos gabinetes do poder.

Grifo disse...

Vamos ver se me faço entender.
O que está em causa não é “quem” define um bom ou mau empresário. Em todas as profissões há bons e maus profissionais, embora não exista nenhuma entidade especifica para essa aferição.
Não acredito que o CCZ não saiba distinguir um bom de um mau empresário.
Utilizando uma das suas fórmulas preferidas ( e da qual eu comungo) em igualdade de circunstâncias, um empresário que aumente a produtividade incidindo a sua acção sobre o numerador da relação, será teoricamente melhor que o que actua sobre o denominador, uma vez que potencia os recursos disponiveis, em lugar de os destruir.
Mas creio que se poderá definir um bom empresário como aquele(a) que tem um conjunto de ferramentas de gestão ao seu dispôr, e que as sabe utilizar em função da sua estratégia, e cria valor numa base sustentável e continuada no tempo.
E isto não tem nada a ver com “papás” ou com o Estado.
Não tenho nada contra o mercado (que não é a panaceia para todos os males, como se pretende fazer crer) mas a verdade é que a qualidade do mercado também depende da qualidade dos seus intervenientes.
Mas também não tenho nada contra o Estado (que também não é panaceia para todos os males) que até poderá promover politicas indutoras de uma valorização de quem produz riqueza e emprego.

E mais uma vez estou de acordo consigo quando diz, de novo num post mais recente :

” A formação profissional pode ser sempre enriquecedora para o indivíduo, mas para uma comunidade, ela é muito mais importante quando é dada em função de uma necessidade que existe a jusante, do que quando é dada no limbo, "just in case".

E, em meu entender, a jusante necessitamos de um conjunto suficientemente alargado de “empresários” que olhe para o mercado e actue sobre o mesmo, com recurso a ferramentas de gestão já disponiveis, mas que lhes passam completamente ao lado. E este tipo de empresários poderá ser “formado”. Mais do que colaboradores formados, precisamos de empresários formados, pois são estes que enquadram e organizam aqueles.
E o esforço de investimento nesta matéria tem sido exactamente o oposto

CCz disse...

"Não acredito que o CCZ não saiba distinguir um bom de um mau empresário."

À posteriori, sou capaz de reconhecer um bom de um mau empresário... pelos resultados.

On-line, posso ter uma opinião sobre a qualidade de um empresário, contudo, dada a falta de informação, não ponho as mãos no fogo por ninguém, nem a favor, nem contra.

Neste endereço:
http://balancedscorecard.blogspot.com/2007/09/empresrios-trocam-portugal-por-espanha.html

Demonstra-se que por vezes o anything goes resulta, porque o mundo muda de forma imprevista.

Acredito no exemplo, já aqui defendi que as associações empresariais deviam desafiar os pares bem sucedidos a contarem o seu caso, para que gente com autoridade da experiência abra os olhos a outros, sem os obrigar.

Já reparou que em 2007 houve mais capital português a investir no estrangeiro, do que capital estrangeiro a investir em Portugal!!!
Por que será?

Grifo disse...

"Acredito no exemplo, já aqui defendi que as associações empresariais deviam desafiar os pares bem sucedidos a contarem o seu caso, para que gente com autoridade da experiência abra os olhos a outros, sem os obrigar."

Esta afirmação tem inplicita a necesidade de melhorar a qualidade dos nossos empresários, que eu tenho vindo a defender nos meus comentários anteriores.

Já quanto ao saldo do investimento estrangeiro, porque será que em 2007 se investiu mais no estrangeiro que em Portugal?

Gostaria de saber a sua opinião.

CCz disse...

"Esta afirmação tem implicita a necessidade de melhorar a qualidade dos nossos empresários, que eu tenho vindo a defender nos meus comentários anteriores."

Não propriamente, tem é a necessidade de mostrar estratégias alternativas!
Para que quem sente que o que tem já não é suficiente, em vez de investir na escalada e procurar fazer mais, se lembre que também pode optar por fazer diferente.

Com todo, mas mesmo todo o respeito pela sua opinião, acho que há um pouco do sentimento de arrogância quando pensamos que um empresário devia ter mais qualidade. Para o meu sistema de valores, a única entidade com poder para atribuir essa classificação é o mercado. Ter gestores com um CV recheado pode ajudar, mas não é receita certa para o sucesso.

Gostava de saber a sua opinião sobre o saldo do investimento estrangeiro. A minha passa por aqui: os detentores de capital procuram sempre as melhores oportunidades, tal como as pessoas:
http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=921035&div_id=291

A lógica será, os investidores encontram melhores condições no exterior do que no país ponto.

Grifo disse...

Caro CCZ

A fraca procura de trabalho qualificado por parte dos nossos empresários constitui o tema inicial desta nossa troca de opiniões.
E toda a minha argumentação tem vindo a ser desenvolvida no sentido de perceber o porquê dessa situação.
Numa economia de mercado, e no caso concreto do mercado do trabalho, a procura é da responsabilidade das empresas, logo, estas só procuram colaboradores qualificados se sentirem a sua necessidade, e estiverem suficientemente organizados para os enquadrar e manter.
Óbviamente que este mercado está condicionado pela evolução do mercado dos bens e serviços, onde o cliente assume cada vez mais um papel determinante.
E as empresas sobrevivem ou desaparecem em função da sua adaptação às condições do mesmo.
E, neste sentido, se as empresas não necessitam de colaboradores qualificados, é porque o mercado não o exige, e nesse caso não faz muito sentido continuar a insistir na tecla da baixa produtividade das nossas empresas, uma vez que o mercado está bem assim.
Mas será que esta situação é sustentável numa optica de médio-longo prazo, designadamente num contexto de mudança acelerada ?
Qual a capacidade de previsão, adaptação e formulação estratégica das nossas PMEs ?
Quantas PMEs se preocupam com a generalidade dos conceitos desenvolvidos (e bem) no seu blog, e lhe atribuem a importância que efectivamente têm ?
Admito, até porque não me conhece, que considere as minhas opiniões como “arrogantes” mas continuo a pensar que é muito mais fácil atribuir responsabilidades pelo nosso atraso económico aos nossos politicos que aos nossos empresários, a quem cabe efectivamente a responsabilidade pela criação de riqueza.
Mas continuo a pensar, até pela minha experiência prática, que a generalidade dos nossos empresários, designadamente das PMEs, não se preocupa minimamente com a sua formação em áreas fundamentais para o êxito dos seus negócios, e para enfrentar com sucesso as respectivas mutações do mercado (as queixas recorrentes que continuam a aprsentar são um bom exemplo da sua inadaptação).
Quanto ao saldo do investimento estrangeiro, é obvio que os empresários investirão onde o saldo custo/beneficio lhes seja mais favorável, apesar deste racio ser bastante mutável no tempo, atendendo ás variáveis implicadas nestes movimentos.
E uma análise da natureza dos investidores portugueses no estrangeiro, também nos arrastará para um universo empresarial fora das PMEs.
Mas já não percebo é a ligação entre este movimento, e o tema da procura de trabalho qualificado pelas nossas empresas.

Grifo disse...

Meu Caro CCZ

Na sequência da nossa troca de opiniões, não resisto a transcrever-lhe uma passagem do livro “os mitos da economia portuguesa” de Álvaro Santos Pereira que diz, à pagina 95, o seguinte :

“ O que isto quer dizer é que nem só o Estado tem culpa pela baixa produtividade nacional. As nossas empresas e gestores também devem ser responsabilizados pelas suas gritantes deficiências organizacionais e insuficiências ao nível da inovação. Isso mesmo foi confirmado por um estudo recente da insuspeita firma consultora McKinsey realizado junto de 4000 empresas europeias, asiáticas e norte-americanas, no qual se conclui que os nossos gestores são dos piores do mundo desenvolvido. Nomeadamente, quando comparados com os seus pares a nível internacional, os nossos gestores estão mal preparados e registam várias insuficiências organizativas. A falta de planeamento atempado, a falta de implementação de processos organizativos e deficiências de liderança são algumas das falhas apontadas aos nossos gestores. Portugal é também um dos países do mundo cujas diferenças na qualidade de gestão entre as empresas nacionais e multinacionais são mais notórias. Isto é, se pudéssemos, deveriamos exportar a grande maioria dos nossos gestores, ou, pelo menos, mandá-los reciclar em estágios e cursos internacionais. E não estou a ser irónico. Afinal, Belmiro de Azevedo é Belmiro de Azevedo e, mesmo assim, todos os anos costuma passar umas semanas no estrangeiro para ouvir e aprender as técnicas mais recentes da gestão a nível internacional.”

CCz disse...

Mas a realidade é que essas tais empresas e esses tais gestores, estão no terreno, dão a cara, vão à luta.

Com todos os seus conhecimentos, quantos empregos criou Álvaro Santos Pereira?

E se os nossos gestores são os piores do mundo desenvolvido, por que é que não aparecem mais craques para lhes comerem as papas em cima da cabeça?

Grifo disse...

Caro CCZ
Como este seu comentário passa completamente à margem do tema da nossa "conversa", pela minha parte este assunto morre por aqui.
Melhores cumprimentos

aranha disse...

Desculpas antecipadas pela intromissão "a posteriori".

A minha leitura:

Facção 1: Não é de atrair empresas que precisamos, é de criar condições para que espontaneamente "pessoas-comuns" comecem a criar empresas.

Facção 2: Epa, que maravilha, venha de lá o QREN. Senhores empresários, vocês precisam mesmo é duma formaçãozinha. E o país precisa de promotores, consultores, formadores, fatos e gravatas, engenheiros e doutores, para proporcionar essa formaçãozinha que é assim tão importante!...

E o aranha vota claramente na facção 1!! (lógico...)