Páginas

sábado, abril 11, 2026

Curiosidade do dia

Eis algo que nunca vi antes. Durante muito tempo, falou-se da China como se a subida na cadeia de valor implicasse abandonar as actividades mais básicas. Mas talvez o traço mais impressionante da evolução chinesa seja outro: entrar com força em sectores high-tech sem perder presença nos low-end.

Isto importa porque mostra uma economia que não está apenas a “melhorar” a sua especialização. Está a alargar o seu domínio ao longo de vários patamares da cadeia de valor.

Para os países ocidentais, o desafio não é apenas competir com a China no topo. É perceber que ela pode estar a ganhar densidade industrial em toda a largura do sistema produtivo.


 

Irrealismo

Ontem, neste tweet:

"Por seu turno, as baixas competências têm um enorme impacto na produtividade. Segundo a mais recente publicação da OCDE, Portugal seria dos países que mais poderia ver a sua produtividade melhorar se as competências/qualificações dos nossos adultos e trabalhadores melhorassem (slide 2). 

Conclusão? Investir na educação, na formação profissional e em melhores competências deveria ser uma prioridade absoluta no nosso País. Um autêntico desígnio nacional. 

Um desígnio que nos permitiria melhorar a nossa exígua produtividade e fomentar os níveis de vida dos nossos cidadãos."

Lamento, não posso concordar.

Mais competências não geram automaticamente mais produtividade. Geram, isso sim, mais potencial de produtividade. Para esse potencial se transformar em produtividade real, é preciso que existam empregos onde essas competências possam ser usadas; processos e tecnologia que permitam aproveitá-las; gestão capaz de reorganizar o trabalho e empresas com estratégia, investimento e mercado.

Então, por que é que a OCDE encontra essa relação? 

Porque, em média, trabalhadores com mais competências tendem a:

  • cometer menos erros;
  • resolver problemas mais depressa;
  • aprender novas tarefas mais facilmente;
  • usar melhor máquinas, software e procedimentos;
  • adaptar-se melhor a mudanças;
  • contribuir mais para melhoria contínua, qualidade e inovação.

No entanto, recordo a imagem deste postal, "A brutal realidade de uma foto", por mais formação e competência que se dê a um trabalhador que está a fazer um trabalho que gera margens de "caca", o resultado na produtividade vai ser de "caca", não há volta a dar.

E volto aos Flying Geese:


É claro que não sou contra a formação, mas pensar que é a formação, sozinha, que vai alavancar o aumento de produtividade de que Portugal precisa é irrealista. 



 

sexta-feira, abril 10, 2026

Curiosidade do dia

O NYT do passado dia 6 de Abril publicou o artigo "Rights Versus Risks Debated As States Eye Raw Milk Sales":
"Robert F. Kennedy Jr., the health secretary, once declared that he drinks only raw milk. Earlier this year, at a state legislative hearing in Michigan, a Republican state representative, Matt Maddock, theatrically sipped from a glass of raw milk and declared, "There's few things in the world that are better than fresh milk." Raw milk was once a counterculture cause; today it is supported by the federal government's top health official and the iron-pumping, vaccine-doubting Make America Healthy Again movement."

É tão interessante. Sempre associei o interesse no regresso ao leite integral na Europa a algo típico dos apoiantes do Bloco de Esquerda, ou a um tipo de cliente do Celeiro. Na América, porque é defendido por Robert F. Kennedy Jr., é visto como algo de direita.

Interessante.



ISO 14001:2015 vs FDIS 14001:2026: acerca do âmbito (cláusula 4.3)


 Na cláusula 4.3, a revisão parece pequena. 

Quando se olha pela primeira vez para a cláusula 4.3 da FDIS ISO 14001:2026, a sensação é quase de déjà vu. A estrutura é praticamente a mesma da ISO 14001:2015; a linguagem mudou pouco e a obrigação central continua intacta: definir os limites e a aplicabilidade do sistema de gestão ambiental. Mas, a meu ver, seria um erro ler esta revisão apenas com os olhos de quem procura grandes alterações de redacção. O que mudou não foi tanto o “texto do âmbito”. Mudou a exigência quanto à seriedade da análise que deve estar por trás dele. 

Na versão de 2015, a organização já tinha de pensar no seu controlo e na sua influência. A novidade da FDIS 14001:2026 é que a ligação ao ciclo de vida deixa de estar sobretudo “escondida” no Anexo A e passa a aparecer de forma mais explícita no próprio requisito. Isto pode parecer um detalhe, mas não é. Na prática, empurra a organização para uma leitura menos estreita do seu âmbito. Já não basta olhar para muros, portões e instalações. Passa a ser mais difícil ignorar decisões de concepção, actividades subcontratadas, requisitos impostos a fornecedores, logística e distribuição. O âmbito pode manter a mesma fronteira física, mas já não pode assentar numa visão curta da realidade ambiental da organização.

A segunda clarificação também me parece importante, sobretudo para filiais, subsidiárias e organizações inseridas em grupos empresariais. O Anexo A.4.3 chama a atenção para um ponto que muitas vezes ficava mal resolvido: há organizações que definem o seu âmbito como se fossem totalmente autónomas, quando decisões ambientais relevantes são tomadas noutro lado. Investimentos, políticas, regras de compras, prioridades estratégicas: tudo isso pode estar fora da unidade local. A FDIS 14001:2026 não transforma isso num novo requisito espectacular, mas torna muito mais difícil fingir que essa dependência não existe. E isso, em muitos casos, é saudável. Um bom âmbito não deve vender uma autonomia fictícia.

Há ainda um terceiro ponto que, embora não seja propriamente novo, sai reforçado: o âmbito não deve excluir actividades com aspectos ambientais significativos, não deve induzir em erro e deve representar de forma factual as operações da organização. Dito de outro modo, a norma continua sem pedir literatura. Mas pede honestidade. E talvez esse seja o verdadeiro espírito desta revisão: não exigir necessariamente âmbitos mais longos, mas sim âmbitos mais credíveis.

No fundo, a comparação entre 2015 e 2026, nesta cláusula, pode resumir-se assim: em 2015 ainda era relativamente fácil tratar o âmbito como uma delimitação formal; em 2026, fica mais claro que ele deve ser visto como uma representação fiel da realidade operacional, da influência ao longo do ciclo de vida e da verdadeira margem de decisão da organização. E isso, para quem leva a norma a sério, é uma mudança bem mais importante do que parece à primeira leitura.

quinta-feira, abril 09, 2026

Curiosidade do dia

"Shoppers will experience a surge in "dynamic pricing" this year when retailers adopt technology that allows them to change the price of goods and services based on demand, the Bank of England has said.

One in three companies plan to use "market-responsive pricing tools" over the next year, up from one in five last year, a survey by the Bank has found. The Bank defines market-responsive pricing as the use of algorithms, including Al, and digital display labels, to adjust prices in response to data on "demand, capacity or competitors' prices". Dynamic pricing raises the prospect of shops changing prices depending on the time of day, how busy a store is or the weather."

Vou aguardar para breve, nos supermercados em Portugal, preços apresentados em suporte digital.


Publicado hoje no The Times.

É preciso trabalhar a diferenciação concreta


Há muitos anos que uso a metáfora do "hollowing" das marcas. 

Por exemplo, neste título de 2019, "profecia fácil do "hollowing", ou "radioclubização", de como uma marca forte e genuína se transforma numa carcaça, num aristocrata arruinado, fruto de deixarem os muggles à solta", ou neste outro de 2016, "Marcas que viraram carcaças (bonitas por fora mas ocas)".

Lembrei-me dela ao ler um artigo publicado no WSJ de ontem, "For Chinese, American Brands Have Lost Their 'Sexy' Cachet":

"American companies are flailing in China.

Last week, Nike said revenue there was down by a double-digit percentage and poised to get worse. California clothing brand Guess just closed down all its stores in China.

...

A decade ago, American companies had pegged China as a top growth opportunity. The country of some 1.4 billion people was growing rapidly and its young people were intrigued by American brands and fashion. 

...

U.S. companies trying to hang on to a piece of the Chinese market are running into innovative local brands in industries such as ice cream, lingerie and bicycles.

...

U.S. companies are finding that Chinese consumers are less captivated by American cultural trends and more often take pride in local brands.

...

"There are so many domestic brands in China now," she said. "If a brand lacks a unique style and a reasonable price, it simply cannot survive here.""

Há dez anos, muitas empresas viam a China como um mercado de expansão quase obrigatório. Hoje, essa expectativa já não se confirma da mesma forma. Os concorrentes chineses melhoraram muito. Já não competem apenas por preço baixo; em vários sectores competem por inovação, rapidez e melhor leitura do consumidor local.

O artigo sugere que os consumidores estão menos fascinados com marcas americanas e mais inclinados para marcas locais. Em alguns casos, o estilo americano perdeu relevância cultural. 

Uma marca não deve assumir que a sua origem, reputação passada ou imagem "internacional" bastam para vencer. Quando o mercado amadurece, o cliente passa a perguntar: o que me dás exactamente que os outros não dão? É preciso trabalhar a diferenciação concreta — produto, serviço, experiência, rapidez, confiança, personalização - e não viver apenas da fama. 


quarta-feira, abril 08, 2026

Curiosidade do dia


O meu amigo Paulo comentou este artigo, "A AI vai mudar o organograma das empresas – e acabar com o ‘middle management’", no Twitter:

E fez-me recordar Heidi & Alvin Toffler ...


Há partes do artigo que parecem ter sido retiradas do vídeo (primeiros 8 ou 9 minutos).

A ideia central é que, pela primeira vez, existe um sistema, a IA, capaz de manter uma visão continuamente actualizada das actividades e decisões da empresa e de usar essa informação para coordenar o trabalho. Numa empresa tradicional, o gestor sabe o que se passa na equipa e transmite contexto para cima e para baixo. O artigo argumenta que a IA pode passar a desempenhar grande parte dessa função de integração e circulação de contexto.

O artigo cita ainda a ideia de que a velocidade é um dos melhores indicadores de sucesso, sobretudo em startups, e sugere que a IA pode alterar a forma de trabalhar muito mais profundamente do que apenas melhorar a eficiência.

Sim, a velocidade é importante e há muita falta dela
Sim, há muitos gestores intermédios que não passam de uma espécie de rentistas. No entanto, não creio que os gestores possam ser eliminados; têm, é de ser, muito mais criativos e proactivos.

BTW, agora pensem no impacte disto na organização do Estado...

Nas democracias parlamentares, também existem muitas camadas de mediação: administração pública, direcções-gerais, gabinetes, ministérios, comissões, partidos, parlamento. Tal como nas empresas, parte dessas camadas existe para recolher, interpretar, filtrar e fazer circular informação, bem como para coordenar decisões entre muitos actores.

Seguindo a lógica do artigo, poder-se-ia dizer que a IA poderia reduzir parte dessa necessidade de intermediação técnica. Por exemplo, poderia consolidar informação dispersa, simular impactos, acelerar a preparação de decisões, acompanhar a execução e dar aos decisores uma visão mais contínua da realidade. Terreno perigoso, porque não é só a eficiência que conta, também a legitimidade, o controlo, a responsabilidade política, o escrutínio, a negociação, ...



Estratégia em todo o lado, não se pode fazer by-pass


Ao longo dos anos, conheci algumas pessoas que olham para a bolsa como um casino, apostando em empresas sem considerar o contexto nem os fundamentos. Foi nelas que pensei quando li no New York Times, a 4 de Abril, o título: “Billions Were Plowed Into Vertical Farms. Most Failed.”

Continua a impressionar-me que haja quem trate estratégia, posicionamento e proposta de valor como se fossem ideias ultrapassadas. 

Durante algum tempo, as vertical farms foram apresentadas como uma espécie de revolução agrícola: menos água, menos pesticidas, menos transporte, menor dependência do clima, maior proximidade ao consumidor, mais previsibilidade, mais tecnologia. A promessa era sedutora: libertar a produção alimentar de algumas das suas fragilidades e colocá-la num ambiente controlado, limpo, racional, quase industrialmente perfeito.

O fascínio compreende-se. A agricultura está exposta à meteorologia, ao solo, às pragas, à sazonalidade e à geografia. A ideia de trazer parte dessa produção para instalações fechadas, com iluminação artificial, controlo ambiental e precisão quase laboratorial, tinha enorme força simbólica. Parecia modernidade em estado puro. Parecia a natureza finalmente disciplinada pela engenharia.

Mas uma coisa é a elegância da promessa. Outra é a dureza da economia.

"Vertical farming businesses blossomed a decade ago, promising an abundant, cleaner source of fruits and vegetables. Today, most of those start-ups have withered.

...

Now, that venture capital funding has gone up in flames, most prominently the $938 million raised by Bowery Farming and the $792 million by AppHarvest, which are out of business.

Just three years ago, 23 companies signed on to a Vertical Farming Manifesto and committed to goals like transforming "food systems for the benefit of people and the planet." Today, fewer than 10 are in business.

The farms and their investors were not fully prepared for what they would encounter in the agriculture industry, where margins were already thin. New, high-tech vertical farms had to elbow their way into produce markets dominated by extremely efficient traditional farms."

O problema das vertical farms nunca foi apenas tecnológico. Foi, sobretudo, económico. Não porque a tecnologia fosse falsa, nem porque o conceito fosse absurdo, mas porque, muitas vezes, se tentou aplicá-lo num terreno em que a lógica do negócio jogava contra ele. A produção alimentar continua a ser, em grande medida, uma actividade de margens apertadas, forte pressão competitiva e enorme sensibilidade ao custo. Entrar nesse mundo com uma estrutura pesada de capital, energia, equipamentos e engenharia exigia uma clareza estratégica que, muitas vezes, faltou.

Foi aí que surgiu o desajustamento. Parte do entusiasmo inicial parece ter partido da ideia de que uma solução tecnologicamente superior acabaria por derrotar uma agricultura tradicional vista como antiquada. Mas a agricultura convencional não é um sistema ingénuo. É o resultado de décadas, por vezes séculos, de aprendizagem, adaptação, optimização e selecção económica. É brutalmente eficiente em muitas das coisas que faz, sobretudo quando se trata de produzir grandes volumes de bens relativamente indiferenciados a baixo custo.

Por isso, nunca me surpreende quando uma nova tecnologia sofisticada descobre, mais tarde do que deveria, que competir com incumbentes altamente eficientes em mercados de commodities é uma forma rápida de destruir valor.

Foi isso que parece ter acontecido com muitas vertical farms. Em vez de reconhecerem cedo que a sua economia as empurrava para nichos, produtos de maior valor acrescentado ou contextos muito específicos, deixaram-se arrastar pela ambição de escala e pela crença de que a superioridade tecnológica bastaria para vencer.

"She said the first wave of vertical farms had approached business as if they were huge, established food companies, and not start-ups. Their business plan was "large-scale, commodity lettuce sold into retail at thin margins," she wrote in an email, a difficult proposition against established competition.

...

Few consumers seek out vertically farmed produce, Ms. Yehia said, so for now, she is targeting a slice of the market - not the mass market. She grows a wide variety of greens, selling to schools and hospitals in addition to local grocers."

Mas a produção de alface não é software.

Convém dizê-lo de forma nua. Houve aqui uma mentalidade típica do venture capital: crescer primeiro, dominar depois, escalar depressa, captar capital e confiar que o modelo acabaria por se endireitar com a escala. Essa lógica pode funcionar em alguns contextos digitais. No mundo físico, e especialmente no alimentar, a realidade é menos indulgente. A energia custa. A infra-estrutura custa. Os juros contam. A operação conta. A logística conta. E o produto final continua a ter de competir com alternativas cuja eficiência foi afinada ao longo de muito tempo.

No fundo, o erro não foi imaginar demais. Foi imaginar no quadrante errado.

Cultivar em altura, em ambiente controlado, pode ter mérito. Pode reduzir certas vulnerabilidades, fazer sentido em alguns contextos urbanos e servir certos produtos, cadeias logísticas e segmentos de mercado. Mas isso é muito diferente de dizer que veio substituir a agricultura convencional ou disputar-lhe, em larga escala, os segmentos mais sensíveis ao preço. Foi nessa distância que muito dinheiro desapareceu.

Ainda assim, seria simplista ler esta história apenas como um falhanço. Há tecnologias que morrem porque não resolvem nenhum problema. E há outras que passam por uma fase de euforia, seguida de desilusão, até encontrarem finalmente o seu território económico real. As vertical farms parecem pertencer mais a esta segunda categoria: não como solução universal, mas como ferramenta útil em condições muito particulares.

É isso que tende a emergir quando o entusiasmo baixa e a realidade se impõe. O espaço viável das vertical farms parece concentrar-se em produtos mais perecíveis, de maior valor, com ciclos mais sensíveis ao tempo, ou destinados a clientes dispostos a pagar por atributos específicos. Quanto mais se sai do território da commodity e se entra no da especificidade, maior a probabilidade da tecnologia justificar o seu custo.

Dito de forma simples: não faz sentido pedir a uma estrutura cara que sobreviva a vender produtos baratos em mercados implacáveis.

Talvez, por isso, a pergunta certa nunca tenha sido "será esta a agricultura do futuro?", mas antes "em que parte da agricultura do futuro faz sentido que isto exista?". A diferença é decisiva. A primeira pergunta alimenta o delírio da substituição total. A segunda obriga ao trabalho sério do posicionamento.

E é talvez aqui que o futuro se torna mais interessante. Não numa guerra frontal entre vertical farms e agricultura convencional, mas numa reorganização mais fina das funções de cada modelo. É possível que certas culturas, certos contextos urbanos, circuitos curtos, segmentos premium ou exigências de previsibilidade criem espaço para esta tecnologia. É possível também que soluções híbridas, como estufas tecnologicamente muito avançadas, acabem por captar melhor a oportunidade, precisamente porque combinam modernização com uma física económica menos severa.

"Plenty, like many others, began with lettuce because it was easy to grow and commanded a high price relative to its weight. But Plenty soon learned that the market was well supplied with lettuce. "How much of a premium lettuce product the market is actually interested in" is an open question, Mr. Malech said.

Plenty closed farms and has pivoted its sole remaining farm, in Virginia, to strawberries. It has a partnership with the berry giant Driscoll's, which distributes its strawberries to restaurants and higher-end stores. Rather than attack conventional farms head-on, as it did a decade ago, Plenty is starting with customers willing to pay more for a tastier strawberry. While vertical farming businesses have not fared as well as expected, high-tech greenhouses are flourishing. Using many of the same technologies as vertical farms, greenhouses grow food in a single layer and rely on the sun for photosynthesis."

Muitas inovações falham quando querem substituir tudo. Têm mais hipóteses quando aceitam complementar, especializar-se ou ocupar apenas os espaços onde a ordem anterior serve pior.

No caso das vertical farms, essa humildade estratégica talvez tivesse poupado muito capital e muita desilusão. Uma tecnologia nova não tem de conquistar o mundo inteiro para provar o seu valor. Basta encontrar um domínio em que a sua diferença seja suficientemente importante para que o mercado aceite pagar por ela.

A história recente das vertical farms lembra-nos, assim, que a inovação não vive só da engenharia. Vive também da escolha lúcida do lugar onde quer competir. E esse lugar raramente é definido apenas pela beleza da ideia. É definido pela combinação de custos, valor percebido, urgência do problema, disposição para pagar e alternativas já existentes.

Talvez por isso o futuro deste sector, se vier a ser construído com mais disciplina, venha a ser menos grandioso nas palavras e mais sólido nos resultados: menos messiânico, mais selectivo; menos centrado em "alimentar o mundo" e mais centrado em resolver bem problemas concretos.

"He said that vertical farming would not replace conventional farming, but that it would develop to grow the highest-value and most perishable produce. He added that he thought placing vertical farms next to, or inside, regional grocery distribution centers made sense, and that companies would pay a premium for the supply chain and off-season flexibility vertical farms provided in an increasingly fragmented world."

As vertical farms não falharam por serem tecnicamente absurdas. Falharam muitas vezes por terem sido empurradas para uma escala, uma ambição e um mercado que não perdoam ilusões. O seu futuro, a existir, começará quando aceitarem uma verdade mais estreita, mas talvez mais fértil: não vieram para substituir a agricultura, vieram para encontrar, dentro dela, os poucos sítios onde podem ser realmente melhores.

terça-feira, abril 07, 2026

Curiosidade do dia

 
"The oil shock set off by the war in Iran is rippling through Asia, where factories are curbing production to save energy, and some gas stations are telling drivers they can only partially fill up. Economists say it is a sign of things to come for countries in Europe and Africa that also rely on imports from the Middle East.
...
Keeping prices down during a supply crisis also props up demand, making shortages worse. 
...
"It is clear that the more you can do to save oil, especially diesel, especially jet fuel, the better we are off," said Dan Jorgensen, the EU's energy commissioner. "We are in a situation that might worsen, where indeed, demand reduction is necessary.""

Trechos retirados de "Europe Faces An Oil Crisis Like Asia's" publicado no WSJ de hoje. 

Os dois lados

No JN do passado 1.º de Abril, li a notícia de que Guimarães vai ter uma fábrica de satélites

No jornal, tal como no link, aparece a foto da Fábrica do Alto, na vila de Pevidém. As instalações da antiga têxtil vão ser cedidas pela Câmara de Guimarães ao CEiiA para a instalação de uma unidade industrial ligada à produção de satélites ópticos.

Esta notícia deixa-me com sentimentos mistos.

Começo pelo lado positivo. 

Ao olhar para a foto da antiga fábrica têxtil e pensar na sua reconversão para uma unidade ligada a satélites, a primeira ideia que me veio à cabeça foi: Flying Geese ao vivo e a cores.

A reconversão de um espaço destes para uma actividade deste tipo tem, pelo menos em teoria, um potencial de valor acrescentado e de inserção em cadeias mais sofisticadas muito superior ao de uma actividade têxtil tradicional. E a imagem é poderosa: um lugar associado a uma etapa antiga da industrialização a tentar entrar noutra muito mais exigente.

Agora imaginem que esta fábrica é uma metáfora de Portugal. Não, isso não quer dizer que tenhamos de acabar com todas as fábricas têxteis. Mas quer dizer que um país não progride a proteger indefinidamente actividades que já não conseguem subir, adaptar-se ou encontrar um novo lugar na escala de valor.

Mas há um outro lado que não convém ignorar.

O caso do ventilador Atena mostrou que o CEiiA tinha capacidade de mobilizar engenharia e de produzir depressa em contexto de emergência. Mas também mostrou que capacidade técnica e capacidade de navegar sectores hiper-regulados não são a mesma coisa. E isso justifica alguma prudência sempre que o CEiiA surge associado a grandes promessas tecnológicas.

É aqui que nasce o meu receio de que isto possa vir a ser mais um caso de assar sardinhas com fósforos.

A sustentabilidade ainda não está demonstrada, o que é natural nesta fase de criação de capacidade. Compreendo isso. Mas o peso do dinheiro público é enorme. Na transparência do PRR, o projecto New Space Portugal aparece com 417,03 milhões de euros de financiamento não reembolsável e com conclusão prevista para 30 de Junho de 2026. Ainda sabemos pouco sobre a carteira de clientes, a cadência esperada de encomendas e a capacidade desta unidade sobreviver sem respiração assistida por fundos e compras públicas.

Para ter pernas para andar, isto tem de deixar depressa de ser um projecto de instalação e passar a ser um projecto de clientes, receitas e repetição de negócio. 

Se ficar dependente de encomendas públicas, de agendas mobilizadoras e de entusiasmo autárquico, pode tornar-se mais uma infraestrutura vistosa e subutilizada. Se conseguir transformar capacidade industrial em contratos de dados, de defesa, de ambiente e de exportação de serviços, então poderá vir a ser uma das raras apostas públicas que realmente ajudam a criar uma indústria nova.

segunda-feira, abril 06, 2026

Curiosidade do dia


Leio isto: Sublinho:
"it's the most elegant labour control mechanism ever written into law.. cheap workers AND workers who can't quit.. in one government form."

Relacionei logo com isto: "Um ano depois, “via verde” para contratar imigrantes merece balanço positivo com mais de três mil vistos atribuídos".

Sim, é certo que, ao contrário dos Estados Unidos, os trabalhadores não ficam presos ao empregador durante um tempo mínimo, mas o protocolo de Abril de 2025 prevê que o empregador tenha obrigações:  entre outras, a existência de contrato de trabalho válido, formação profissional e aprendizagem da língua, alojamento adequado.

Ora, o artigo 137.º do Código do Trabalho permite que as partes acordem que o trabalhador não denuncia o contrato durante um período de até três anos, mas apenas como compensação por despesas avultadas com a sua formação profissional. Claro, o trabalhador pode rescindir esse acordo mediante o pagamento do montante correspondente a essas despesas. 

Recordar:


O problema não é de procura, é de oferta

 A propósito disto:

Isto:
Primeiro sinal - BP em Itália

 

domingo, abril 05, 2026

Domingo de Páscoa

 


A minha imagem preferida para o Domingo de Páscoa... Maria Madalena à beira de exclamar:

Rabôni! (Jo 20, 16)

sábado, abril 04, 2026

Sábado Santo: Um grande silêncio reina sobre a terra

 

Fonte.

O Sábado Santo é o dia do silêncio, da espera e da esperança entre a morte de Jesus na cruz e a sua Ressurreição.

Depois da dor da Sexta-feira Santa, a Igreja fica, por assim dizer, junto do túmulo. Não se celebra a Missa durante o dia; o altar permanece despojado, e os fiéis são convidados à oração e ao recolhimento. É como se toda a criação estivesse suspensa, à espera.

Mas o Sábado Santo não é apenas um dia de luto. É também o dia em que os cristãos contemplam Cristo que, tendo morrido, vence a morte. Na tradição cristã, este é o tempo ligado à chamada descida de Cristo à mansão dos mortos, sinal de que a salvação alcança também os justos que O precederam.

A grande importância litúrgica do Sábado Santo culmina na Vigília Pascal, celebrada na noite de sábado para domingo. Essa vigília é uma das celebrações mais importantes do ano litúrgico. Nela, a Igreja passa da escuridão para a luz, acende o círio pascal, proclama a Ressurreição e celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.


quinta-feira, abril 02, 2026

Quinta-feira Santa


 Leonardo da Vinci, Public domain, via Wikimedia Commons

A Quinta-feira Santa é importante porque celebra a Eucaristia, o serviço, o amor fraterno e o início do caminho da Paixão de Jesus.

Esta noite, segundo a tradição cristã, Jesus celebrou a Última Ceia com os discípulos. Instituiu a Eucaristia, isto é, a origem da Missa: o pão e o vinho oferecidos por Jesus como o seu Corpo e o seu Sangue.

Também é um dia muito ligado à instituição do sacerdócio ministerial, pois Jesus confia aos apóstolos a missão de repetir esse gesto em sua memória.

Além disso, a Quinta-feira Santa recorda o lava-pés. Ao lavar os pés aos discípulos, Jesus mostra que a verdadeira grandeza reside no serviço, na humildade e no amor concreto pelos outros. 

Do ponto de vista litúrgico, a Quinta-feira Santa abre o Tríduo Pascal, o centro do ano litúrgico cristão, que se prolonga com a Sexta-feira Santa e culmina na Vigília Pascal e na Páscoa.

Depois da ceia, Jesus vai ao Getsémani, onde vive a angústia, a oração e o início da sua Paixão.

Uma tristeza...

"In view of massive Chinese imports of cheap parts, Valeo points out that this can have devastating consequences for the European automotive supplier industry ...

The Valeo boss Christophe Perillant noted in the context of the IAA Mobility: "Today, 75 percent of the parts found in a car manufactured in Europe also come from Europe. But if we want our industry to remain as strong as it is today, this quota must be maintained at least!”"

Se a UE decidir proteger esta base industrial, a pergunta seguinte que eu faria seria simples: proteger em troca de quê?

Porque , se houver protecção pública, barreiras, conteúdo local obrigatório, subsídios ou preferência regulatória, deixa de fazer sentido que as empresas se comportem como se tivessem conquistado um mercado cativo sem contrapartidas. Nesse caso, alguma disciplina sobre margens, preços e uso dos lucros passa a ser não apenas aceitável, mas legítima.

O ponto não é impedir o lucro normal, nem sequer um bom lucro. O ponto é evitar que a protecção pública se transforme em renda monopolística. Ou seja: aceitar rentabilidades atractivas, mas não permitir que a protecção se traduza em preços artificialmente elevados, sem melhoria visível na capacidade, na inovação ou no emprego.

Se há protecção, não deve haver liberdade total para converter escassez politicamente criada em rendas privadas. Mas também não deve haver um tecto tosco às margens que desincentive o investimento e a inovação.

E foi aqui que me ocorreu o velho condicionamento industrial de Salazar. Proteger uma indústria estratégica não é, por si só, salazarismo económico. Mas proteger incumbentes da concorrência, sem prazo, sem disciplina e sem contrapartidas, começa a aproximar-se da lógica profunda do condicionamento industrial: não a defesa temporária de capacidade estratégica, mas a cristalização administrativa de posições adquiridas.

"Contrary to widespread belief, China's cost advantage is only partially due to lower wages. The analysis by Roland Berger shows that approximately 60 percent of the cost advantage arises from design and system decisions, such as consistent standardization, reduced variety, and "fit-for-purpose" engineering, which focuses on market-relevant performance. Other drivers include competitive supplier structures and operational efficiency, rather than primarily personnel costs."

E aqui a coisa torna-se muito mais interessante.

O primeiro texto descreve o sintoma; o segundo explica uma parte importante da doença. Dito de outra forma: o CEO da Valeo fala como um incumbente ameaçado; o segundo artigo fala como um diagnóstico de competitividade.

No texto sobre a Valeo, a resposta implícita é, sobretudo, proteger: preservar a produção europeia, manter o conteúdo local, pedir ajuda à Comissão. Dir-se-ia: a resposta reflexa de uma Europa que, perante a pressão externa, pensa primeiro em escudos.

No texto sobre a China Speed, a resposta implícita é, sobretudo, transformar: reduzir a complexidade, acelerar as decisões, integrar melhor os fornecedores, usar mais testes virtuais e adoptar uma versão europeia daquilo a que chama China Speed-Light.

O aparente choque entre os dois textos desaparece quando percebemos que não se contradizem. Falam isso, sim, de planos diferentes para o mesmo problema.

A Valeo olha para a pressão concorrencial: os componentes chineses chegam mais baratos, comprimem a indústria europeia e ameaçam o emprego, a escala e a capacidade produtiva. O tom é, por isso, o de quem pede defesa.

O outro artigo olha para a origem da vantagem chinesa: não é apenas uma questão de salários mais baixos, mas também de produtos mais simples, menor variedade, decisões mais rápidas, mais testes virtuais e integração mais cedo com os fornecedores. Ou seja, não é só custo. É um sistema.

Por isso, não há verdadeira contradição. Há uma diferença de foco. A Valeo descreve o impacto; o outro texto explica a mecânica. Um pede protecção. O outro sugere transformação.

E é daqui que sai a conclusão mais importante: se a Europa se limitar a proteger os seus fornecedores sem mudar a forma como desenvolve produtos, decide e organiza a sua cadeia de valor, ganhará tempo, mas não recuperará competitividade.

O risco, naturalmente, é que a protecção se torne substituto da reforma. E aí entramos num terreno muito familiar, sobretudo em países como Portugal: o velho hábito de responder à fragilidade competitiva com pedidos de apoio, excepções, barreiras, almofadas e qualquer outra coisa que adie a necessidade de mudar a sério.

No fundo, é sempre a mesma tentação: pedir ao Estado que proteja o que as empresas não conseguiram tornar suficientemente forte para resistir ao mundo tal como ele é. 

Agora, imaginem isto por todo o lado, a começar por Portugal, pelos habituais pedidos de apoios e protecções, e sei lá o que mais. Uma tristeza...

quarta-feira, abril 01, 2026

Curiosidade do dia

Volto ao podcast DOAC com Daniel Priestley que referi aqui.

Se clicarem no link para o podcast vão parar ao momento em que Daniel Priestley diz qualquer coisa como:
"65% of all the businesses by valuation are people over 65 now. So there is a mathematical certainty that 2/3 of the businesses that run the economy by valuation have to change hands in the next 10, 15, or 20 years.

So this is a massive business opportunity. Baby boomers want to get rid of their businesses.
They want to retire.

Baby boomers are willing to fund you to buy their business if you present yourself well, if you've got a little bit of a personal brand."

Entretanto, mão amiga mandou-me aquilo que me parecia uma mentira de 1º de Abril, mas que já confirmei que é verdade:

"C'est une réalité qui s'impose : la France vieillit, on le savait. L'espérance de vie augmente, la natalité chute et 22,2 % des habitants de ce pays ont désormais plus de 65 ans. De toutes les conséquences du vieillissement post-baby-boom, il en est une qui avait été identifiée mais sans doute pas assez relevée : une grande partie de nos chefs d'entreprise, ces patrons de PME, ETI et TPE, qui font le tissu profond de nos territoires, ont l'âge de passer la main! Selon un rapport du Sénat datant de 2024, un patron sur quatre a déjà plus de 60 ans. D'ici moins de dix ans, ce sont près de 500 000 établissements qui devraient changer de propriétaires. Et avec eux, des millions de salariés dont l'avenir s'écrit en pointillé. Qu'ils dirigent une boulangerie de quartier, un salon de coiffure indépendant, une boîte de plomberie ou de transports, beaucoup sont à l'affût, à la recherche d'un successeur, parfois désespérément.

...

Le ministère de l'Économie évaue à 500 000 le nombre de ces entreprises qui vont devenir orphelines dans les dix prochaines années. Soit au total trois millions de salariés, dans tous les secteurs d'activité, qui peuplent chaque parcelle du pays. « Cette grande transmission doit devenir une grande cause économique nationale », martèle Serge Papin, le ministre des Petites et Moyennes Entreprises."

Para reflectir... Portugal está ainda mais envelhecido do que a França e nunca tinha ouvido falar deste tema por cá. Ando distraído.


Trechos retirados do que me parece ser o jornal "Le Parisien" de hoje.

O problema, por isso, nunca foi apenas de texto.

A ISO 14001:2015 inclui uma nota à cláusula 5.2 c)

“NOTE Other specific commitment(s) to protect the environment can include sustainable resource use, climate change mitigation and adaptation, and protection of biodiversity and ecosystems.”
A FDIS 14001:2026 inclui uma nota à cláusula 5.2 c)
“NOTE Other specific commitment(s) to protect the environment can include: preservation or conservation of natural resources; sustainable resource use; climate change mitigation and adaptation; or protection of biodiversity and ecosystems.”
A ISO 14001:2015 inclui esta alínea na cláusula 5.2 d) 
"includes a commitment to fulfil its compliance obligations;"
A FDIS 14001:2025 inclui esta alínea na cláusula 5.2 d) 
"includes a commitment to meet its compliance obligations;"
Agora leio um documento da LRQA que me avisa:
“Update your environmental policy to reflect revised terminology and broader commitments.”
E eu que em 2007 escrevia aqui:
"Aproveito as minhas aulas sobre SGA's. para chamar a atenção de que as políticas ambientais não devem ser TT (todo o terreno), não deviam servir para qualquer empresa, deviam ter em conta os resultados do levantamento ambiental específico da organização, e a sua estratégia para o negócio."
E eu que em 2010 escrevia aqui:
"Por demasiadas vezes, deparamo-nos com sistemas de gestão ambiental que estão a leste do negócio das organizações, que evidenciam as famosas políticas ambientais TT, "políticas todo o terreno". Experimente fazer o teste, encontre uma política ambiental de uma organização certificada ISO 14001, com uma caneta-corrector, esconda a sua designação. Agora, leia o texto da política várias vezes, testando, em cada uma delas, um nome diferente para a organização, verifique como a política contínua aplicável, independentemente do nome escolhido ser o de uma multinacional de serviços, ou de uma PME industrial. Acontece quase sempre, apesar da alínea a) da cláusula 4.2 da ISO 14001:2004."
A alínea a) da cláusula 4.2 da ISO 14001:2004 é agora a cláusula 5.2 a) quer da ISO 14001:2015, quer da ISO/FDIS 14001:2026.

Não creio que a simples introdução mais explícita das “condições ambientais” ou o alargamento dos exemplos na nota da cláusula 5.2 c) venha, por si só, alterar profundamente a realidade no terreno.

Convém não confundir a clarificação com a transformação.

A ideia de que a política ambiental deve estar ligada à realidade específica da organização não nasceu agora. Não apareceu de repente com a FDIS 14001:2026, como se antes a norma autorizasse políticas ambientais vagas, intercambiáveis, "todo-o-terreno" e desligadas do negócio. Essa ideia já lá estava. Estava sob a exigência de adequação ao propósito e ao contexto da organização. Estava na referência à natureza, à escala e impactes ambientais das suas actividades, produtos e serviços. E, para quem quisesse ir além do ritual, estava também numa leitura minimamente séria do que deve ser uma política de gestão.

O problema, por isso, nunca foi apenas de texto.

O problema esteve, demasiadas vezes, na prática de aceitar políticas ambientais "todo-o-terreno": textos suficientemente genéricos para servir a quase qualquer organização, suficientemente correctos para não levantar objecções e suficientemente vazios para não obrigarem ninguém a pensar a sério sobre os aspectos ambientais significativos, as prioridades reais da organização ou a forma como a gestão ambiental se articula com o negócio.

É verdade que a nova redacção ajuda. Ao falar mais explicitamente de preservação ou conservação dos recursos naturais, ao reforçar o léxico ligado às condições ambientais, a FDIS torna mais visível uma intenção que já existia, mas que muitas vezes passava despercebida, ou era convenientemente desvalorizada. Nesse sentido, a revisão da norma pode fornecer mais argumentos a quem queira exigir políticas ambientais menos genéricas, mais situadas e consequentes.

Mas uma norma mais explícita não produz automaticamente um mercado mais exigente.

E é aqui que entra a minha dúvida.

Durante anos, muitas organizações foram certificadas com políticas ambientais claramente "TT", sem verdadeira ligação ao seu levantamento ambiental, sem correspondência nítida com os seus aspectos ambientais significativos, e sem tradução visível nas prioridades de gestão. Isso aconteceu não porque a norma o exigisse, mas porque, em muitos casos, o sistema o tolerou. E quando uma prática foi tolerada por tanto tempo, não basta acrescentar uma expressão, reformular uma nota ou enriquecer um exemplo para esperar uma mudança repentina de comportamento.

Seria bom que assim fosse. Mas não é assim que as coisas funcionam.