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terça-feira, abril 07, 2026

Os dois lados

No JN do passado 1.º de Abril, li a notícia de que Guimarães vai ter uma fábrica de satélites

No jornal, tal como no link, aparece a foto da Fábrica do Alto, na vila de Pevidém. As instalações da antiga têxtil vão ser cedidas pela Câmara de Guimarães ao CEiiA para a instalação de uma unidade industrial ligada à produção de satélites ópticos.

Esta notícia deixa-me com sentimentos mistos.

Começo pelo lado positivo. 

Ao olhar para a foto da antiga fábrica têxtil e pensar na sua reconversão para uma unidade ligada a satélites, a primeira ideia que me veio à cabeça foi: Flying Geese ao vivo e a cores.

A reconversão de um espaço destes para uma actividade deste tipo tem, pelo menos em teoria, um potencial de valor acrescentado e de inserção em cadeias mais sofisticadas muito superior ao de uma actividade têxtil tradicional. E a imagem é poderosa: um lugar associado a uma etapa antiga da industrialização a tentar entrar noutra muito mais exigente.

Agora imaginem que esta fábrica é uma metáfora de Portugal. Não, isso não quer dizer que tenhamos de acabar com todas as fábricas têxteis. Mas quer dizer que um país não progride a proteger indefinidamente actividades que já não conseguem subir, adaptar-se ou encontrar um novo lugar na escala de valor.

Mas há um outro lado que não convém ignorar.

O caso do ventilador Atena mostrou que o CEiiA tinha capacidade de mobilizar engenharia e de produzir depressa em contexto de emergência. Mas também mostrou que capacidade técnica e capacidade de navegar sectores hiper-regulados não são a mesma coisa. E isso justifica alguma prudência sempre que o CEiiA surge associado a grandes promessas tecnológicas.

É aqui que nasce o meu receio de que isto possa vir a ser mais um caso de assar sardinhas com fósforos.

A sustentabilidade ainda não está demonstrada, o que é natural nesta fase de criação de capacidade. Compreendo isso. Mas o peso do dinheiro público é enorme. Na transparência do PRR, o projecto New Space Portugal aparece com 417,03 milhões de euros de financiamento não reembolsável e com conclusão prevista para 30 de Junho de 2026. Ainda sabemos pouco sobre a carteira de clientes, a cadência esperada de encomendas e a capacidade desta unidade sobreviver sem respiração assistida por fundos e compras públicas.

Para ter pernas para andar, isto tem de deixar depressa de ser um projecto de instalação e passar a ser um projecto de clientes, receitas e repetição de negócio. 

Se ficar dependente de encomendas públicas, de agendas mobilizadoras e de entusiasmo autárquico, pode tornar-se mais uma infraestrutura vistosa e subutilizada. Se conseguir transformar capacidade industrial em contratos de dados, de defesa, de ambiente e de exportação de serviços, então poderá vir a ser uma das raras apostas públicas que realmente ajudam a criar uma indústria nova.

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