segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Somos tão poderosos

Qual o critério seguido pela administração pública para seleccionar a entidade que vai elaborar o projecto de uma obra pública?

Desconfio que seja o típico do sector... o preço mais baixo.


Preço mais baixo --> (implica) --> gente menos experiente (mais barata) a fazer o projecto?

Preço mais baixo --> (implica) --> documentação mais antiga (mais barata) e mais desactualizada?

Preço mais baixo --> (implica) --> menos deslocações ao local (menos custos) para ver a realidade, se calhar o que a carta militar de 1945 retrata... foi modificado entretanto?

Preço mais baixo --> (implica) --> menos tempo e reflexão (menos custos) sobre a opção proposta?


Daí que o produto não seja de admirar: "Obras públicas duplicam custos" no JN de hoje, assinado por Lucília Tiago e Ricardo David Lopes.


"Projectos mal feitos

"Um projecto bem feito resolveria, à partida, quase todos os problemas""


Os americanos dizem: "Don't blame the product, blame de process"

Se não gostamos dos resultados que temos, temos de ir a montante, temos de ir à fonte... é absurdo impor soluções por decreto. O trecho que se segue é tão cómico que me preocupa:


"com a nova legislação sobre contratação pública, que entra em vigor em Julho, a responsabilidade dos desvios recaia sobre os construtores que, ainda na fase de concurso, têm de identificar erros e omissões sobre projectos que não realizaram."

...

" obrigar os construtores a gastar tempo e recursos na avaliação de projectos feitos por terceiros, sob risco de serem responsabilizados pelas derrapagens nos custos."


Quem faz leis destas deve ser dos tais que temos encontrado nos últimos dias na internet, gente que aos 25 anos é deputado, vive na assembleia, vive em gabinetes e corredores da ecologia do poder de Lisboa. Depois, por osmose um dia chega a ministro, secretário de estado, ... e lançam, orgulhosos da sua capacidade e poder, estas pérolas legislativas:


"Não gastarás mais de 5% do orçamentado!"

Não interessa que o projecto seja mau, não interessa, não interessa, ...

É como aquelas fábricas onde critico os gerentes por estes considerarem que o controlo da qualidade é o "culpado" das não-conformidades, dos defeitos detectados. A qualidade não se controla, produz-se, projecta-se.

2 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Acho que falhou o ponto. As regras dos construtores são para enganar.

(Começe-se por afirmar que um dos maiores problemas nos desvios está nas alterações pedidas pelos donos de obra...ou seja pelo governo.)

Agora, o que é relevante dizer é que se passa a poder fazer ajuste directo até 150.000€ (antes era 5.000€).

CCz disse...

Realmente esse ponto do ajuste directo passou-me ao lado.

No entanto, é característico de uma determinada fauna, acreditar que um decreto-lei resolve tudo.